Crítica | Festival

Glasshouse

Não é só o que não se vê

(Glasshouse, RSA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Ficção Científica
  • Direção: Kelsey Egan
  • Roteiro: Emma Lungiswa De Wet, Kelsey Egan
  • Elenco: Jessica Alexander, Kitty Harris, Adrienne Pearce, Hilton Pelser, Anja Taljaard, Brent Vermeulen
  • Duração: 94 minutos

O universo fora da casa de vidro é misterioso. Há uma toxina venenosa no ar, as pessoas não são bem-vindas, e pouco se sabe além disso. Já o que está dentro é familiar, parece que já vimos antes. As roupas, as falas em forma de culto, a estrutura daquela família matriarcal. As pessoas são diferentes, mas é como se já tivéssemos presenciado aquilo antes. Glasshouse tem um algo de já visto que não deixa o filme por um minuto sequer, talvez pela construção de uma microssociedade como A Vila, ou pela forma de vida de Somos o Que Somos, ou pela nova estrutura de O Estranho Que Amamos e tantas outras referências de horror folk e filmes de isolamento e novas comunidades que existem por aí.

A percepção de familiaridade, porém, não é prejudicial ao filme. Pelo contrário, estranhamente, a diretora Kelsey Egan, em sua estreia em longas, usa isso a seu favor. É como se o espectador estivesse consciente do que vai acontecer na casa. Embora, como parte de seus moradores, ele não saiba de todos os segredos, ele conhece os perigos do exterior, aquele que a história apresenta, e aqueles que reconhece para além da metáfora. Além do mais, tem uma consciência do local e de seus habitantes. Essa sensação — estranha — causa uma espécie de ligação forçada com os personagens, e é mais forte com Evie e a mãe, em sentimentos opostos, de empatia e antipatia. Identificação?

Glasshouse
Courtesy of Fantasia Festival

O roteiro, da própria diretora, ao lado de Emma Lungiswa De Wet (que curiosamente dublou o vaga-lume de O Ritmo da Selva: O Filme) distingue as personalidades dos habitantes da casa de vidro. A matriarca e suas filhas têm destinos previamente estabelecidos mesmo antes que saibam e no cotidiano têm suas atribuições, entre elas cuidar da casa e do irmão. Glasshouse abre espaço para diversas leituras, com metáforas muito potentes sobre terra, natureza, humanidade e a própria sociedade. A questão do feminino é muito destacada. Com a mãe e suas filhas vivendo em um grupo formatado para ser funcional e onde os homens são executados antes de se aproximarem, a menos que sejam selecionados para ali estar, ou sejam “os filhos do local”. Descartáveis, eles viram alimento ou bonecos para o chá da Dona Maroca.

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É a chegada do estranho que vem para mudar tudo, como em Teorema, ou no filme de Siegel já citado, ele traz com ele sentimentos antes ocultos, de competição, desconfiança e, principalmente, desejo. É curioso como o desenho de produção vai se transformando gradualmente após a chegada daquele que toma o nome de Lucas, biblicamente, o “portador da luz”. Significativo que o sexo masculino traga o desarranjo, interessante que o feminino se sobreponha a ele e continue sendo a voz dominante, tomando “a primeira mulher” como a regente do lugar. 

Glasshouse
Courtesy of Fantasia Festival

Egan manipula signos muito marcados e arraigados em nossa sociedade e contraria expectativas quando dá lugar ao improvável para abrir espaço a uma previsão não tão positiva do futuro. O longa sair da brancura asséptica e assumir imagens idílicas de um presente, após uma nova cerimônia, não diminui a manipulação e os atos escusos. E, se a mudança era necessária, ela traz outras coisas. Da luz virá a escuridão, aquela que está no fade out que vem logo após o ato final. 

A mensagem distópica de Glasshouse não é óbvia, mas também não é sutil. O trabalho com as cores e a fotografia, numa comunhão de Kelly Van Lilienfeld e Justus de Jager, respectivamente, é preciso na transformação rumo a um incerto ilusório, mas que cumpre expectativas dos que estão fora da tela e são completamente ignoradas pelas personagens. ‎Eles não têm a menor ideia de que a casa de vidro sempre protegeu sua sociedade de perigos muito maiores do que uma mera toxina do ar. 

Um grande momento
O desejo que se consuma

[25º Fantasia International Film Festival]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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