Crítica | Streaming

O Ritmo da Selva: O Filme

Da imaginação à repetição

(Jungle Beat: The Movie, MRI, RSA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Animação
  • Direção: Brent Dawes
  • Roteiro: Brent Dawes, Sam Wilson
  • Duração: 88 minutos

Brincadeiras de faz de conta são fundamentais na infância e imanentes ao ser humano. O ato de transformar elementos, cruzar histórias, emprestar funções e identidades é natural e faz parte do cotidiano de qualquer criança. Elas estarem expostas por longos períodos — agora, então — a universos prontos, seja em filmes, séries ou games, onde a determinação audiovisual é muito impactante, influencia o jogo criativo. Tanto elementos como referências, símbolos ou significados vão passar a ser muito menos a representação do que se vive e é. Os jogos de imaginação vão trazer aquilo que se consome. Pior, o que se quer que consuma. O Ritmo da Selva é como um produto desta dinâmica estabelecida, uma realização nas telas da crise do faz de conta nos dias atuais.

Empréstimos do universo audiovisual são comuns em produções infantis e podem ser vistos em grandes sucessos, principalmente em animações mais modernas, como Shrek, A Fuga das Galinhas ou Madagascar. Porém, sempre surgem de forma acessória à trama, como pequenas surpresas e brincadeiras com o público, geralmente por quem leva os pequenos ao cinema. Quando vem como elemento principal, é desconstruído, como em uma das mais adoradas franquias da atualidade, Toy Story. A história dos brinquedos que ganham vida é puro faz de conta, daquele mais elementar, e traz também as referências de consumo: seus protagonistas são um cowboy astro de seriado de TV e um astronauta boneco campeão de vendas, mas o universo que John Lasseter cria é completamente original, ainda que, como os citados anteriormente, também belisque Star Trek, Star Wars, O Exorcista, De Volta para o Futuro e tantos outros títulos. 

O Ritmo da Selva: O Filme

O Ritmo da Selva não está em nenhum desses lugares. Desvirtuando-se de sua própria origem — o desenho é baseado na série animada Munk and Trunk, onde um macaco e uma elefanta que se divertem na floresta com seus amigos em episódios mudos, observando fenômenos da natureza — aqui, o faz de conta é limitado e a criatividade é mais limitada ainda. O filme não está brincando com citações e muito menos criando algo original com aquilo que vira em algum lugar antes. Pelo contrário, é como se fosse apenas uma colagem preguiçosa de elementos que são conhecidos, alguns com um bom apelo e outros que nem mesmo em seus lugares de origem despertaram atenção, figurinhas repetidas de vários álbuns diferentes que são coladas todas no mesmo lugar. E não parece haver qualquer vergonha nisso, personagens, eventos e, inclusive, diálogos se repetem.

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O que eram para ser pitadas viram predominâncias. Logo de cara, aqueles animais que tinham suas personalidades na série, ao despertarem, tomam emprestado características de colegas de outros estúdios, com uma habilidade bem comum em filmes de animais que os desfiguram. Tal habilidade está relacionada ao elemento “novo”, o responsável pelo conflito, aquele que guiará o roteiro pelos seus 88 minutos. Se as semelhanças dos personagens conhecidos com produções de grandes estúdios já estavam chamando a atenção, nada se compara ao incômodo pela trama principal seguir tão de perto os passos do curta animado O X do Natal. Gorgon é basicamente uma réplica do personagem do filme de Stephen Chiodo, inclusive o modo como sua transformação se dá é a mesma.

O Ritmo da Selva: O Filme

Se há algo de positivo em O Ritmo da Selva é a própria animação, que ganha novas cores, definição e muito mais agilidade nos movimentos. Além disso, o diretor Brent Dawes, como um bom amante do cinema de animação, apesar de todo o problema que esteja por trás disso, soube escolher boa parte daquilo que copiaria, e conseguiu imprimir um ritmo à sua colagem. Alguns de seus personagens, como Baby, conseguem manter o carisma que tinham na série e têm os seus momentos e o filme encontra algum apelo em seu terço final, mas nunca sem se livrar da sensação de “eu já vi isso antes”. O final, fácil demais, chega com vontade de deixar uma mensagem e não vê que reafirma a própria falta de crença em si mesmo.

Porque é aquilo: O Ritmo da Selva é um exemplo claro de que nada pior do que o consumo para destruir a imaginação e o faz de conta. Munk, Trunk e seus amigos eram personagens com sua própria trajetória e que sempre deixaram as crianças imaginarem aquilo que queriam de suas aventuras, mas bastou um estalo para que fossem transformados em coisas batidas e já vistas tantas vezes. Sem faz de conta, sem imaginação, apenas um apanhado de repetições.

Um grande momento
O macaco está voando

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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