Crítica | Streaming

Relíquia Macabra

De filha para mãe

(Relic, AUS, EUA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Natalie Erika James
  • Roteiro: Natalie Erika James, Christian White
  • Elenco: Robyn Nevin, Emily Mortimer, Bella Heathcote, Steve Rodgers, Chris Bunton, Robin Northover, Catherine Glavicic, Christina O'Neill
  • Duração: 89 minutos

Não há relação mais complexa do que a relação mãe e filho, o primeiro vínculo, a primeira interação humana. Desta troca primeira, biológica ou não, sentimentos vão sendo construídos de amor, ódio, raiva, orgulho, culpa, admiração e, com eles, posicionamentos são tomados, de distanciamento, submissão, carinho, enfrentamento, cuidado. Um jogo complexo, impreciso, inconstante, reversível pelo tempo e que se torna ainda mais delicado quando se dá entre duas mulheres, entre uma mãe e uma filha. Relíquia Macabra, um dos bons títulos de terror da IFC Midnights, disponível no Telecine, é sobre isso.

Em seu primeiro longa-metragem, Natalie Erika James, que já demonstrava um apego por ligações familiares em seus curtas, mergulha nas metáforas. Da casa que se consome à vela transformada, das pilhas de recordações à demência. Após a mais familiar das datas, o Natal, conhecemos as três gerações da família na perda em vida. Kay e sua filha, Sam, voltam à casa de seu passado para procurar por sua mãe, que está desaparecida há alguns dias. O mergulho das duas nas histórias íntimas, naquele ambiente que se deteriora, é o símbolo de uma ausência que a diretora explicita no filme, mas não necessariamente está ali. A mente de Edna está se despedindo do mundo, já disse adeus a sua comunidade e demora para que as suas a encontrem.

Relíquia Macabra (2020)

A opção de desmembrar o seu objeto em três pontos é clássico na análise desta relação familiar. Ao oferecer a multiplicidade de vínculos, aumentam-se ainda mais as tensões, pois há uma incompreensão natural nas visões dos sujeitos da relação. Kay nunca entenderá a admiração de Sam por Edna ou o carinho que esta tem por sua filha, mas nunca teve por ela; do mesmo jeito que Sam nunca entenderá a dificuldade de relacionamento de Kay com a mãe. Imagens distorcidas que Relíquia Macabra reflete de toda uma histórica relação fora das telas. James não é óbvia na exposição, mas traz isso em olhares, em pequenos gestos que escapam.

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O trio é vivido por Robyn Nevin (de Matrix Reloaded), Emily Mortimer (de A Garota Ideal) e Bella Heathcote (de Sombras da Noite) e conta com um trabalho impressionante das duas primeiras. Nevin vai do extremo obsediado à ausência absoluta, dos olhos enfurecidos a olhos doces de uma vozinha que jamais faria mal a alguém. Mortimer dispensa comentários e consegue transmitir a angústia de uma filha que não sabe o que fazer e nem tem certeza do que quer ou deve pensar. Atropelada pela inversão, que ela minimizava o máximo que podia, se vê perdida. Heathcote chega um pouco mais tímida do que as outras duas, mas não compromete.

O jogo de James é todo construído em cima de suspeitas, o clima de insegurança e de medo é alimentado a cada instante e é mesmo assustador aquilo que se presencia. As ligações maternas vão sendo trabalhadas em conjunto, em estranhamentos e reconexões e, por muitas vezes auxiliam no clima pesado que a diretora busca, trazendo a culpa e o medo para o filme, dando uma forma a esses sentimentos. Embora o artifício seja batido, o sonho, a força do significado e a violência da repetição fazem com que ele se encaixe bem na narrativa. 

A casa chega como uma quarta personagem de Relíquia Macabra. É ela quem representa fisicamente essa relação e o encontrar de uma situação que não se quer encarar. Como símbolo de um passado empoeirado, mofado e entulhado de lembranças, aquele espaço perdido, que vai consumindo as pessoas que nele se encontram por simplesmente não saberem como sair dali, é o próprio vínculo, aquele que se formou nos primeiros momentos de vida. De Edna para Kay, De Kay para Sam. E assim seguirá. “Não devia ter trazido esse vitral para a porta”, diz a avó sem saber que era impossível deixá-lo para trás.

Um grande momento
Comendo o passado

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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