Crítica | Streaming

EncrenCão

Corpo modesto cheio de simpatia

(Trouble (2019), CAN, EUA, CAY, 2019)
Nota  
  • Gênero: Animação
  • Direção: Kevin Johnson
  • Roteiro: Jordan Katz, Rob Muir
  • Duração: 87 minutos

A Netflix tem tido uma audiência cada vez mais exigente por animações, e o top 10 do streaming nas últimas semanas tem estado regularmente com a maioria de suas posições ocupadas por títulos do gênero de todos os tempos, de O Ritmo da Selva a A Fuga das Galinhas, mostrando que o público infantil é um alvo seguro deles. Essa percepção não foi notada agora, e por isso o canal tem lançado animações em estreia com frequência, mesmo que os predicados das mesmas sejam exatamente visíveis a olho nu. Estreia de hoje, EncrenCão vem chegando a diferentes partes do mundo há dois anos, e agora estará disponível em todo mundo via Netflix, pra manter seu público mirim entretido mesmo sem oferecer muito a eles.

O diretor Kevin Johnson passou pelas equipes de grandes produções como O Gigante de Ferro, e nessa sua segunda assinatura como autor, entrega uma história inofensiva repleta de bons sentimentos sobre adoção com pitadas de várias referências do universo pop espalhadas pela narrativa, ao menos duas delas frequentes. Com roteiro de Rob Muir e Jordan Katz, o filme aposta numa profusão de cores em constante movimento, em uma história muito ágil que fixa na memória dos menores (o principal alvo da produção) e deixa a tal mensagem importante para os maiores e o resto da família, sem contra indicações.

EncrenCão

Trata-se, apesar de tudo, de uma produção de realização muito modesta, feita com um carinho que se sobrepõe ao material animado, em quadros fixos, personagens que se parecem fisicamente, sem muitas elaborações visuais. O que salta aos olhos, como já dito, é a aquarela muito evidente, que transforma os planos em uma espécie de caixa de lápis de cor em movimento, capaz de hipnotizar qualquer mini-espectador. Com a agitação de suas cenas, o filme acaba vencendo o público pelo carisma e pelas boas intenções de sua narrativa, que verdadeiramente vende sua ideia com clareza e perspicácia.

Com uma ideia sedutora onde o personagem principal, um cachorrinho herdeiro de uma fortuna e que foi criado numa bolha pela sua falecida dona, é com facilidade observado metaforicamente como uma criança indesejada que acaba por cair em lares de adoção e abrigos para menores, EncrenCão tem a seu favor essa conexão imediata que o público traça com a narrativa, que na primeira sequência através de uma borboleta em um plano sequência animado já qualifica todos nós como iguais, e facilmente sua ideia é passada, graças a simpatia inerente ao protagonista, que é mais de 50% da garantia de envolvimento com o longa.

Das muitas referências que o filme apresenta, temos duas mais óbvias e recorrentes, que são um quinteto de esquilos dançarinos que elaboram passos inspirados em Michael Jackson chegando até a uma espécie de paródia direta a “Smooth Criminal”, música e clipe, um momento muito simpático do filme, além de um personagem de um detetive particular especializado em animais, que só pela descrição nos remete ao Ace Ventura imortalizado por Jim Carrey, mas que vai além das linhas gerais, porque seu grafismo é todo retirado do próprio personagem, do figurino e visual estético ao gestual e corporalidade, que com esses elementos tentam angariar também a simpatia do público adulto, um esforço simpático nessa tentativa.

Reside então em EncrenCão elementos que elevam e desabonam o filme, todos juntos convivendo pacificamente. A simpatia do projeto no geral encontra a modéstia que também é presente e não pode ser ignorada, e que no caso de uma animação, sua falta de recursos evidencia uma estrutura que o distancia de grandes produções do gênero, ao passo que mesmo chafurdando em clichês, seu roteiro funciona. O que fica de mais evidente nesse lançamento é como a Netflix apresenta uma produção tão diminuta em todos os sentido um mês depois de algo do nível de A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas, um contraste que causa muito espanto.

Um grande momento
“Eu quero o osso que esse humano está comendo”

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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