Crítica | Streaming

Milagre Azul

Banhados de azul

(Blue Miracle (2021), EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Julio Quintana
  • Roteiro: Chris Dowling, Julio Quintana
  • Elenco: Dana Wheeler-Nicholson, Dennis Quaid, Bruce McGill, Raymond Cruz, Fernanda Urrejola, Anthony Gonzalez, Jimmy Gonzales, Nathan Arenas
  • Duração: 95 minutos

Se tem algo que espanta em Milagre Azul, o hit número 1 da Netflix hoje, é sua capacidade em ser coerente imageticamente. Desde o primeiro plano, que devassa o azulíssimo mar do litoral mexicano, o filme não mente que seu título será provado em cada detalhe. Cena a cena, o azul representado pelo marlim que precisa ser pescado para que o concurso marítimo seja ganho, está em absolutamente não apenas em todos os lugares e sequência, mas a cada novo ponto onde a câmera focaliza, esteja a cor em primeiro ou segundo plano, ou mesmo sem foco – o azul amarra esteticamente o filme do início ao fim, provando sua opção deliberada.

Em tese, nós já vimos esse filme a nossa vida inteira. A “Sessão da Tarde” exibiu e exibe títulos com as mesmas características, os mesmos propósitos e almejando o mesmo envolvimento popular que esse aqui, há anos e anos. O próprio Dennis Quaid (de Longe do Paraíso), parte integrante do elenco, já estrelou algumas dessas produções, que já vieram com o selo da televisão americana, mas também já tiveram a cara da Disney, com suas produções esportivas baseadas em fatos. O filme dirigido por Julio Quintana é um pouco de ambos os casos, o que justifica seu sucesso e seu engajamento junto a audiência da Netflix.

Milagre Azul

Em seu segundo filme como diretor, Quintana tem pais cubanos e filma esse México azulado quase como uma provocação a tradição hollywoodiana de transformar a pobreza latino-americana em palco para experimentar seus tradicionais filtros amarelos, cada vez mais redutores acerca da relação com que o cinema como um todo tem com a pobreza extrema, em geral. Sua visão esperançosa em relação a um universo de ausências emocionais e materiais é um bálsamo para a relação com a própria obra, que parte de um aspecto da tonalidade do animal-símbolo da obra, se espraiando pelo todo imagético e dando ao projeto um caráter lúdico, com direito a um certo realismo fantástico empregado com sutileza.

Apoie o Cenas

Além dessas tintas que suavizam uma realidade muito mais dura sobre a vida de crianças de rua recolhidas por um sujeito com poucos recursos, são os sonhos do protagonista Omar que criam uma aura mágica a produção, ainda que esses dados sejam pontuais, sem transbordar a narrativa com seus momentos de desvario. A união desses elementos cria a combinação perfeita para toda a família se entreter por hora e meia, e ao fim da projeção, uni-lo a uma seara imensa de filmes com os mesmos predicados já exibidos à exaustão nas matinês globais. Suas intenções não vão além disso mesmo.

Milagre Azul é, assim, uma obra no meio do caminho. Quintana não desmerece seu próprio talento, nem diminui suas capacidades para que caibam no produto em questão, deixando sua imaginação estética aflorar livre na construção de suas imagens. Paralelo a isso, a mesmice narrativa, a forma didática como trata seu desenrolar e pré-programada, prende o filme em uma estrutura muito banal, do ponto de vista do roteiro (escrito pelo diretor e Chris Dowling), e o espectador vai sendo carregado pelo senso estético que o filme possui, tentando abstrair suas molas envelhecidas que não criam qualquer maior arrebatamento, que inclusive apontam a mudança de teor narrativo dos personagens igualmente através das cores – reparem na ida do azul para o vermelho em determinada sequência.

Contando com um elenco infantil crescente, e tendo essas crianças passado por poucas e boas na vida, o filme tem o mérito de não explorá-las, nem sua fofura nem seu espaço cênico, a título de explorar a empatia do público. Essa exploração até acontece, mas é da natureza da própria história e não está necessariamente debruçada sobre as crianças e suas imagens, mas na história (real) delas, órfãos prestes a perder até o pouco que tinham, e salvos pela abundância de azul. Ponto a favor para o diretor Quintana, ponto contra para o roteirista Quintana.

Um grande momento:
“Lute pelos seus meninos”

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
Botão Voltar ao topo