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A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas

Fábrica de acertos

(The Mitchells vs. the Machines, EUA, CAN, FRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Animação
  • Direção: Michael Rianda, Jeff Rowe
  • Roteiro: Michael Rianda, Jeff Rowe
  • Duração: 113 minutos

Acho que não existe alguém no mundo que nunca tenha se sentido deslocado, e essa sensação deve começar na infância/adolescência, por isso essa mensagem tão forte vem sendo constantemente passada através de obras dirigidas a esse público. A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas, produção da Sony Animation comprada pela Netflix depois de inúmeros adiamentos para a estreia, chega hoje às telas mais uma vez repetindo uma mensagem de aceitação, dessa vez ainda mais importante pois talvez pela primeira vez se trate de uma protagonista descobrindo sua sexualidade de maneira natural pela narrativa, ainda que o filme enfoque o primeiro grande temor de todo LGBTQI+, ser aceito pela sua família.

Os diretores e roteiristas Michael Rianda e Jeff Rowe estreiam nas duas funções com essa produção dos craques Christopher Miller e Phil Lord (de Uma Aventura Lego e Tá Chovendo Hamburguer!) repleta de armadilhas, a começar pelo já citado e espinhoso tema, que precisa ser abordado com o máximo de delicadeza e sutileza possíveis, respeitando o grupo que representa e apresentando um universo inesgotável de referências e informações, com gêneros igualmente em profusão e propostas de animação também repletas de riscos – a histeria dá as caras diversas vezes, o filme parece sempre andar na linha tênue do bom gosto, mas tudo acaba por se encaixar e funcionar; quantas vezes já ouvimos Talking Heads perfeitamente integrados a uma animação?

A própria hiperatividade é uma frequente no roteiro, que chuta para todos os lados constantemente, acaba se revelando positivo ao humor que é praticado no filme, cáustico e moderno, que bebe na linguagem da juventude de 2021 sem nunca deixar de ser inteligível para todos os públicos, incluindo porque se trata de uma base do filme, o conflito de gerações que se abre entre pais e filhos hoje ainda mais exacerbado com o advento da tecnologia, que saiu das mesas de trabalho para as mesas de jantar. Criticando os dois lados de toda questão que aborda, a produção não se posiciona para lado nenhum para exatamente por isso estar atento a todos os lados, dando voz a queixa dos adolescentes sem esquecer dos lamentos dos adultos.

A protagonista Katie é filha da modernidade, em todos os sentidos, e suas inclinações (a arte, o sexo, a moda) são inseridas em contextos desprovidos de explicações laudatórias e sem superexposição de ideias; sua postura em relação ao mundo é a arma que irá combater não apenas a ameaça vital ao planeta, mas metaforicamente ela trás ao filme… arco-íris, sempre e por todos os lugares onde passa e interage. Seu conflito com o pai não passa por questões sexuais, mas pelo afeto que parece perdido graças ao abismo que se abre entre pessoas que se querem bem ao escolherem não ouvir um ao outro.

De quebra, o filme também é uma carta de amor à cinefilia, como vem sendo abordado em filmes recentes, como Eu, Você e a Garota que Vai Morrer. Katie é uma adolescente cujo sonho é estudar Cinema, acaba de ingressar em uma faculdade para tal e tens já alguns trabalhos feitos e postados no YouTube; retrato de uma geração que chega à arte antes dela chegar a eles, o filme é uma porta de entrada que se abre também a esse profundo amor pelo cinema através de uma explosão de intenções de gênero, tais como a animação, a comédia rasgada, o filme catástrofe, o drama familiar, e realiza a todos com o máximo em afeto.

Criativo e feérico, A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas talvez canse uns ou outros espectadores pelo seu excesso – de informações gráficas, de sua tentativa constante de estar sempre à frente do desejo do público e promover a melhor experiência possível. Mas como cada elemento parece ter sido escolhido a dedo para provocar o que por fim consegue, Rianda e Rowe nos fazem rir em demasia e vibrar com a salvação do mundo como há muito não acontecia, não subestimando a inteligência de ninguém e impressionando tanto com sua técnica quanto com seu coração. A única coisa que não impressiona é o talento de Olivia Colman, que no próximo ano virá buscar mais um balde de prêmios, agora por sua voz; mais uma vez, serão merecidos.

Um grande momento
“Live your Life”

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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