Crítica | Cinema

Nazinha, Olhai por Nós

(Nazinha, Olhai por Nós, BRA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Belisario Franca
  • Roteiro: Belisario Franca
  • Duração: 85 minutos

Numa colônia penal, porcos e patos vêm sendo alimentados, bem cuidados. Logo é chegada a hora do abate. Eles vão servir de alimento em receitas como a maniçoba e o pato no tucupi, estrelas principais na ceia natalina dos paraenses que é o almoço do Círio. Se a padroeira dos brasileiros é Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora de Nazaré é a padroeira dos nascidos no Pará. Por isso, o Círio é de Nazaré. Estado tradicionalmente com parte da população católica, é comum ter em muitos dos lares paraenses uma imagem da santa, intimamente chamada de Nazarezinha, Naza, Nazica, Nazinha, ou então o cartaz do Círio do ano — muitos dedicam devoção a ela.

Ela está no centro da narrativa de Nazinha, Olhai por Nós ou é tão somente a festa em sua homenagem a ocasião para que os personagens possam momentaneamente esquecer do cárcere. Uma produção da Giros, de Belisário Franca, o documentário estreia nesse mês das mães no VoD após ter tido première no Cine Ceará 2020. Tendo como cenário o Pará, a segunda parte da trilogia do silenciamento de Belisário Franca, Soldados do Araguaia, encontra então sua terceira parte. A trilogia ainda é composta por Menino 23 – Infâncias Perdidas no Brasil, eleito o melhor documentário no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de 2017.

O argumento é do casal de roteiristas paraenses Michelle Maia e Ismael Machado que, ao longo de anos, visitou unidades do sistema carcerário na região metropolitana de Belém pesquisando personagens dentre os detentos. Eles chegaram até Neusa, Raíssa, Everaldo e Julio que sonham com a oportunidade de ir para o semiaberto ou sair momentaneamente sendo beneficiados com o induto do Círio.

Nazinha, Olhai por Nós

“liberdade! vou me embora”

O diário dos detentos e detentas é perscrutado nesse filme, que inclusive traz a passagem de tempo e mudanças na situação dos quatro. Entre separações, lutos, gravidez, reconciliações e renascimentos Nazinha, Olhai por Nós traz o dado estatístico de que 40% dos detentos brasileiros foram presos antes do julgamento e ainda aguardam sentença.

A abordagem discursiva e a estratégia narrativa do documentário tenta costurar a intensidade da fé e da esperança com as histórias de vida dos encarcerados. A cena em que as detentas recebem a visita da imagem peregrina (uma das réplicas que fazem as procissões do Círio) é particularmente tocante. Porém, nas outras sequências o ritmo claudica bastante — talvez a personagem menos prejudicada e que mantém certa coesão é Neusa, que se afirma inocente e canta para aplacar a dor de responder como suposta mandante da morte do amante.

Quiça a sensação de desconjunção da história fosse inexistente se um dispositivo dialético tivesse posto, como uma forma de não só investigar aquelas vidas interrompidas, apartadas da família e do convívio social, mas de permitir aos personagens vocalizarem e não apenas serem objetos da pesquisa. A materialização da ideia governante — sistema penitenciário desumaniza, a burocracia da justiça atrapalha a ressocialização e a reincidência é o ponto cego num país excludente.

Nazinha, Olhai por Nós

Chico, dos Irmãos Carvalho, é um filme que fabula com mais riqueza narrativa a dor da clausura seguida pela inadequação e as intempéries da liberdade condicional. Porque Nazinha, Olhai por Nós tem momentos também de crueza, tem falas carregadas de significado na vida nas ruas como as da diretora da Penitenciária Feminina em Ananindeua, “que a sociedade quer vingança e não ressocialização, quer que os detentos desapareçam”.

Ela transita pela prisão carregando o microfone no cós da calça e vocaliza que “ex-presidiária vai carregar um rótulo para sempre”. Corta para o tour pela Colônia Penal Agrícola de Santa Izabel; quem apresenta os pavilhões super lotados, com paredes derrubadas, banheiros improvisados é Júlio, já “gato escaldado” na cadeia e tentando não esmorecer nem pensar muito nas dezenas de anos ainda a cumprir, no tempo que vai se passar e ele não vai aproveitar (especialmente as fases da vida dos dois filhos).

Inocentada três anos depois ter sido presa por uma ligação telefônica feita para o homem que foi assassinado, Neusa é, nas palavras do defensor público, alguém que tem tudo contra si: “preta, pobre e adúltera”. Há dualidade na história dessa mulher, meio mártir como Raskólnikov na obra prima de Dostoiévski ao carregar o castigo da invisibilidade social consigo. Ela costura, canta, tenta pegar um ar de liberdade quando a brecha surge — ela canta no coral formado por outras detentas do sistema prisional e pode sair pra ver a santa passar nas ruas de Belém — porque não ressente nem se arrepende de ter amado, mesmo que não fosse amor, mas sim uma cilada.

“Não sabia que namorar era crime”

Raíssa já refletiu sobre seus sonhos partidos, saudade que tem da vida antes da prisão e a decepção quando os familiares souberam que ela estava envolvida com atividades ilícitas. Em um relacionamento tóxico, ela docemente vai se iludindo de que tudo vai melhorar.

É fato que Nazinha, Olhai por Nós é expositivo ao ponto de a linguagem cinematográfica estar constantemente sendo sublinhada pelo tema, beirando o campo da videorreportagem.
Trilhando os caminhos de Raíssa, de Julio e também de Everaldo, que, com seu cabelo moicano, passou “desde os 18 anos eu nunca soube o que é estar na rua, todo o tempo sendo preso, preso, preso” mas sem realmente calçar as sandálias.

Nazinha, Olhai Por Nós, como as contas de um rosário reza um terço pela cartilha do documentário expositivo – o que não é defeito algum – mas ao abordar as vidas de maneira procedural onde o foco gira para a o capítulo destinado a cada um a partir desse tipo de trama mais linear, com os nomes deles na cartela que abre a sequência – inclusive da Nazinha – espraiando uma narrativa mais convencional na edição.

Seguindo uma lógica bem simplista, com as jornadas dos detento sendo apresentadas de forma convencional de Yan Motta, que também assina a trilha sonora. Como poderia ter uma potência forte a partir da fabulação na cena em que Júlio visita com a esposa o polo joalheiro São José Liberto, museu de gemas e joias que é na realidade o antigo presídio onde ele ficou preso a princípio. E como as imagens de Nazinha, que habitam certas sequências mas cumprindo mais o papel de imagens de cobertura do que inundando propriamente os segmentos com o aspecto emocional devido — mas essa intenção não é contemplada, nem a graça, atendida.

Um grande momento
O querer andar na rua de cabeça erguida

Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
Botão Voltar ao topo