Crítica | Festival

Pseudo

Quem tudo quer...

(Pseudo, BOL, 2020)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Rodrigo Patino, Luis Reneo
  • Roteiro: Rodrigo Patino, Luis Reneo
  • Elenco: Cristian Mercado, Milton Cortez, Luigi Antezana, Carla Arana, Pedro Grossmann, Jorge Ortiz, Percy Jiménez, Kike Gorena, Raúl Beltrán, Bernardo Rosado, Mauricio Toledo, Pablo Fernández
  • Duração: 90 minutos

Já vimos esse filme tantas vezes quanto o cinema existe, é um mote típico de tantos noir e de tantas comédias screwball que quase dá pra entrar no jogo de Pseudo de cara. A dinâmica é a seguinte: pessoas que se acham espertas e tentam dar golpes umas nas outras acabam elas mesmo sendo golpeadas, muitas vezes pela força das circunstâncias, pelo ciclo da vida, pelo que não conseguem controlar. Se não é algo fora do comum e original, também não somos agredidos por uma narrativa pretensiosa – o filme é o que é, com suas limitações e seus méritos, não escamoteia informação, é, por assim dizer, muito honesto.

A dupla de diretores Gory Patiño e Luis Reneo ainda não tinha realizado junto, mas ambos têm experiência anterior, o primeiro em longas e o segundo um currículo de curtas com volume. Isso fica claro muito rápido, Pseudo tem ritmo, tem uma pegada pop muito clara e é um filme de fácil entendimento, daqueles sem contra indicações. Com um protagonista claro que coloca os pés pelas mãos muito rapidamente, percebemos que essa não é uma especialidade dele; quase todos com quem ele cruza se julgam mais sagazes que na verdade são, e não somente o filme não dará razão a ninguém, como tratará todos como a vida trata muitos desses tipos.

A verdade é que percebemos que a produção tem mais roteiro e informação do que seria capaz de dar conta; não é simples organizar um Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes, tanto que seu autor Guy Ritchie tantas vezes tropeçou. Aqui em cena temos não apenas muitos eventos acontecendo em paralelo, como personagens em funções diferentes para montar toda uma pirâmide social de marginais, do mais pé de chinelo até o mais engravatado, passando por um grupo em busca de propósitos elevados, mas que se unem aos piores tipos possíveis para realizar seus intentos. O resultado dessa sobreposição de vozes é que, muitas vezes, não conseguimos ouvir nenhuma.

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Cada personagem corresponde a um subnúcleo que representa uma fatia social dentro de uma Bolívia contemporânea com um rescaldo de injustiças e violência que se arrasta pela História, e provoca uma torrente de vinganças que o filme se encarrega de dar continuidade ininterrupta. Temos tipos socialmente relevantes e temos escroques puros, e com a união dessas narrativas, o filme acaba engordando desnecessariamente um leque de ambições que mais atrapalham do que apresentam o trabalho de seus autores. Com uma edição caprichada, Pseudo precisaria ser enxugado; em determinado momento, seu excesso remete a cansaço.

O filme ainda constrói um esquema de reviravoltas e twists que ajudam a embalar o interesse no todo, tem uma sequência envolvendo a casa do protagonista Julian que se estende por um tempo e consegue provocar um estado de tensão verdadeiro. Também o elenco tem boa postura, entrega exatamente o que se exige para cada um, e Carla Arana em particular sabe o que está criando, sua personagem é o elo empático do público com o que estamos acompanhando. Mas o filme não complementa todas as jornadas com igual empenho, o que atrapalha o andamento – afinal, não temos apenas uma personagem importante no longa.

Ainda que a ação e a sedução de Pseudo estejam em um produto de acesso fácil, uma espécie de Pecado Capital (sim, a novela) que encontra Snatch + A Outra Face, o caráter quente da produção não obscurece seus problemas de gorduras, uma vontade incontrolável de contar muitas histórias em uma só. Uma revisão no roteiro para eliminar 30% das suas ideias talvez elevasse o filme para algo ainda mais substancioso do que uma recreação de fácil digestão.

Um grande momento
Cara a cara

[49º Festival de Cinema de Gramado]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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