Crítica | Festival

Planta permanente

Quando sonhar custa caro

(Planta permanente, ARG, URU, 2019)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Ezequiel Radusky
  • Roteiro: Diego Lerman, Ezequiel Radusky
  • Elenco: Liliana Juárez, Rosario Bléfari, Verónica Perrotta, Nina Suárez, Sol Lugo, Pedro Palomar, Rubén Gaetano, Amparo Maldonado, Horacio Camandule, Gustavo Portela, Eduardo Ferrer
  • Duração: 78 minutos

Sonhar pode até ser algo para todos, mas realizar os sonhos é para muito poucos. E existe uma parcela da população que tem um limite para até sonhar, ou vai viver frustrada. Lili e Marce fazem parte desse grupo. Chegamos devagar na vida das duas, conhecendo aos poucos seus cotidiano e logo sabendo que, apesar dos anseios em comum e da enorme amizade que as une, tem personalidades completamente diferentes. Em Planta permanente Lila é aquela que todos conhecem, com quem todos interagem, Marce é mais fechada, embora fale com carinho dos colegas.

Além da interação entre elas e com aqueles que com elas convivem, o diretor Ezequiel Radusky faz questão de demonstrar a relação das duas com o próprio prédio, com seus longos e largos corredores; e a contradição entre ambientes de atendimento e de confraternização. Momentaneamente, o filme se transforma com a apresentação da nova diretora, assumindo uma estética de palestra motivacional, com palavras confirmando aquilo que se via. É quando mais uma diferença entre as protagonistas se estabelece: “vou sair daqui senão vomito” x “ela falou tão bonito”.

O roteiro, do diretor e de Diego Lerman, cria uma personagem irreal em sua ingenuidade. Lila chega a enervar por sua bondade. Seus lampejos de coragem, são sempre contaminados de uma certa quantidade de autopiedade, como quando ela resolve falar contar toda a sua trajetória no órgão para a chefe ou quando fica parada como um dois de paus na apresentação do refeitório, sem conseguir falar. Além disso, ela é aquela que vai sozinha à noite para casa. Já Marcela tem uma postura diferente e está mais próxima de uma pessoa real, inclusive em seus defeitos e antipatia.

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A dinâmica das duas, que estão em um jogo de impulsionar e frear ações, faz Planta permanente funcionar. Radusky e Lerman vão criando ganchos para que a trama solucione mais na frente: o sonho comum do refeitório, o empréstimo e coisas do tipo. Tudo terá que ser resolvido. Porém, o mais óbvio é a ruptura das duas amigas. Ela é responsável por eventos interessantes, como picuinhas tolas, como um simples limpar do tapete, até coisas maiores, como a entrega de quentinhas para diminuir as vendas do refeitório ou coisa pior.

Esse afastamento influencia bastante a dinâmica do filme quando se analisa as duas personagens individualmente, principalmente pelos sentimentos que despertam no espectador. O não dito constante de Lila, o egocentrismo de Marce vão cansando e chegam desgastados ao clímax. E Planta permanente, que é um filme de personagem, acaba se enfraquecendo nesse ponto, mas não deixa de ter suas qualidades. O modo político como se posiciona e escancara a impossibilidade das duas mulheres de concretizarem seus sonhos. Aquela planta que sempre foi desenhada sem pensar nelas e assim continuará sendo, por anos e anos, infelizmente.

É uma pena que estejamos tão distantes das duas. Talvez, se Radusky tivesse distribuído melhor suas características e tivesse dado a Lila a mesma coragem para falar aquilo que precisava em sua vida particular teria sido outra coisa. Mas, aqui, ela era essa pessoa que só conseguia falar por seu refeitório impossível, amiga de outra que não conseguia enxergar além de seu umbigo, e essas duas interessaram por algum tempo, em seu jogo de convivência, no modo como se complementam e como construíram o seu cotidiano até ali, mas não por todo tempo.

Um grande momento
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[49º Festival de Cinema de Gramado]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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