Crítica | Festival

All the Moons

Um lugar onde haja mais segurança. É para lá que as freiras levam as pequenas órfãs de seu convento durante mais um bombardeio da Terceira Guerra Carlista. Uma das jovens já se destaca pela curiosidade com que acompanha a aflição das religiosas. São seus olhos curiosos que nos guiam por todo All The Moons, belo filme basco sobre solidão e encontros dirigido por Igor Legarreta.

A escuridão e figuras encapuzadas que vagam pelos escombros na primeira parte do longa aumentam a tensão metafórica de uma guerra que assassina mães e filhas, destrói abrigos e tira a luz. É quando se dá o primeiro encontro. Haizea Carneros impressiona em sua estreia pelo modo como trabalha com sentimentos como o medo de estar sozinha e a incompreensão do estado das coisas e de sua condição. 

All The Moons
© Filmax

Há química entre ela e Itziar Ituño (La casa de papel), o que dá muita credibilidade à relação de afeto, cuidado e proteção, mesmo que essa seja a primeira experiência das duas. Se há dedicação à construção dessa maternidade e à transmissão da natureza da mãe, a ruptura chega assombrada e Legarreta leva o espectador a uma outra realidade. 

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Assim como aquela que se chamará Amaia, ao mudar de tempo, vamos nos acostumando aos poucos com a luz, até que estejamos integrados a ela, mas não totalmente. A penumbra, aquela da ausência, ainda marca os espaços do próximo que cruza o caminho da menina. O personagem de Josean Bengoetxea (O Silêncio da Cidade Branca), tem características bem diferentes da de Ituño, mas que o aproximam mais da personalidade arredia da pequena estranha.

All The Moons
© Filmax

All the Moons é um filme muito delicado. O diretor opta por uma construção que dê tempo ao espectador para se afeiçoar à pequena Amaia, criando ambientes que a façam se apresentar e, mais do que isso, se autoconhecer. Da arredia àquela que descobre o amor em todos os sentidos, o envolvimento gradual faz com que quem está do outro lado da tela se aproxime dos personagens.

A trajetória da pequena vampira perpassa alegorias tradicionais relacionadas ao ser folclórico, como o luto e a solidão, mas uma coisa é ver um adulto nesse lugar, outra, completamente diferente, é acompanhar uma criança com toda sua vontade de descobrir, se integrar e uma eternidade que nunca caberá à sua imagem. Sobre o eterno, o longa não fala apenas sobre o indivíduo e alcança a História da Espanha, seja em seus macroeventos ou em sua moral católica e religiosa.

Com um bom roteiro, um conjunto técnico que funciona muito bem, belíssimas locações e uma protagonista que cativa, All The Moons é um filme que a gente tem dificuldade de se despedir. 

Um grande momento
Um demônio ou um anjo?

[25º Fantasia International Film Festival]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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