Crítica | Festival

Hellbender

(Hellbender, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: John Adams, Zelda Adams, Toby Poser
  • Roteiro: John Adams, Zelda Adams, Toby Poser
  • Elenco: Zelda Adams, Toby Poser, Lulu Adams, John Adams, Rinzin Thonden, Khenzom, Shawn Wilson
  • Duração: 86 minutos

– Eu não sou doente.
– Não. Você é perigosa!

Das bruxas e com bruxas. Ser mãe e filha. Amar e odiar, Vigiar, Ter medo e poder. Assumir e se entregar. Destruir. Ser mulher. Em sua simplicidade, Hellbender significa muita coisa. Conta da história de uma menina com uma doença rara que precisa viver isolada do mundo em uma montanha com sua mãe e, adolescente que é, resolve desafiar as regras, aproximando-se de Amber e fazendo alguns amigos. Um verme, literalmente, muda toda a configuração da sua vida.

O longa familiar (no sentido de serem todos parentes, não de direcionamento ao público), dirigido a seis mãos por John Adams e as duas atrizes principais, Zelda Adams e Toby Poser, não tem muita linearidade. Seus elementos vão se costurando em um tecido estranho, mas nunca desagradável. Das longas caminhadas solitárias de Izzy na floresta aos demorados e minuciosos rituais da mãe, passando pelas apresentações de rock feminista para ninguém — e ao mesmo tempo para todo mundo — com maquiagens e cenário elaborado, tudo acaba se conectando bem. 

Apoie o Cenas

Hellbender, porém, é feito de maneira muito simples, artesanal, assim como são artesanais os artefatos da mãe. Seu interesse está nos detalhes, sempre muito bem pensados para demonstrar a transformação, como, por exemplo, o prato a la chef minimalista com uma fruta silvestre, um ramo de árvore e uma pinha que mais tarde dá lugar a uma minhoca viva. No fim das contas, o filme é sobre isso, sobre o transformar-se o deixar de ser aquela menina que não sabe o que é e descobrir-se. Encontrar o seu poder e, no caso, devorar o mundo. 

Interessante também no longa, que mais do que o coming-of-age de Izzy, o ser mulher transpira por outros poros. Muito além das descobertas, dos novos interesses e realizações e da sua transformação, há uma mãe superprotetora que perde. E não o faz de maneira tranquila, mas desesperada. Ainda que haja muitos momentos de comunhão e de enfrentamento, o despertar de uma, assusta a outra, que tenta se inserir, mas sabe que não tem mais espaço. Para mãe e para filhas, se horror é alegoria, a cena final pontua, por exemplo, a liberdade e a perda definitivas.

O fato de mãe e filha atuarem, dirigirem e roteirizarem Hellbender traz um senso de verdade à história, justamente pela intimidade que pode ser percebida em cena, desde a simplicidade de uma conversa trivial na frente de casa depois de comprar uma coroa até uma catártica e sanguinolenta viagem de larva na neve. Mas nem tudo é positivo e há momentos em que Poser se perde em seu papel, o que não se percebe em Adams, que vai muito bem da ingenuidade e obediência cega à descoberta, liberação e ruptura completa com o que antes existia.

Se tornar mulher é destruir fronteiras e libertar o que há de mais poderoso dentro de si, é cortar amarras e, ao mesmo tempo, deixar para trás aquela que foi e sempre será a maior referência. Ser mãe é sofrer com esse processo, é sentir os laços se desfazendo e ver a filha se distanciando, indo embora enquanto toma as rédeas da própria vida, mesmo que continue ali. “Eu vou à cidade. Você quer alguma coisa?”

Um grande momento
A catarse do amadurecimento

[25º Fantasia International Film Festival]

Curte as coberturas do Cenas? Apoie o site!

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
Botão Voltar ao topo