Crítica | Festival

Homem Onça

O Brasil que adoece

(Homem Onça, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Vinícius Reis
  • Roteiro: Fellipe Barbosa, Flávia Castro, Vinícius Reis
  • Elenco: Chico, Díaz, Sílvia Buarque, Bianca Byington, Emílio de Mello
  • Duração: 93 minutos

No Brasil, parece que estamos sempre voltando para o mesmo lugar, ou para um lugar muito pior do que o que já estivemos antes. Homem Onça retrata um dos momentos desse nosso país: o neoliberalismo voraz e a sanha privatizadora de Fernando Henrique Cardoso, o “inventor do Real”, que ganhou R$79 bilhões para pagar uma dívida que foi de U$78 bilhões a US$ 245 bilhões no seu governo. Ainda que específico, não deixa de antecipar a desgraça do inominável, aquele que até o próprio FHC condena, em seu descaso absoluto pelo meio ambiente, suas benesses a garimpeiros e madeireiros e, voltando ao tema específico, até florestas nacionais privatizadas.

Mas o Brasil vai ficar rico
Vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as alma
Dos nossos índios num leilão

Que País É Esse?
Renato Russo

O filme de Vinicius Reis, diretor de Praça Saens Pena e Noite de Reis), se divide em dois tempos, seguindo uma linha narrativa que se alterna entre eles. Quem guia a história é Pedro, um chefe de seção apaixonado, com uma equipe dedicada e um pé de café que está sempre junto dele. A árvore é um símbolo curioso que remete à manutenção da natureza por perto em um lugar de asfalto e concreto; um objeto que representa a importância de representações físicas do passado para o protagonista. Ele está em meio a um enorme projeto quando o fantasma da privatização chega para assombrar a companhia que no filme seria semelhante à Vale do Rio Doce, talvez.

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Homem Onça
Foto: Divulgação

Para os mais novos, um pequeno histórico dessa privatização específica, a mais desesperada de todas. Quando foi dada a largada, a primeira gigante foi a Vale do Rio Doce, que nem estava na lista de empresas que seriam desestatizadas, mas era ela que fazia os olhos de todos os investidores do mundo — sim, do mundo inteiro — brilharem. Por quê? Porque a Companhia Vale do Rio Doce era, e ainda é, a maior exportadora de minério de ferro e uma das maiores mineradoras mundiais. Foi vendida por R$3 bilhões. Na época, era avaliada em R$60 bilhões.

A solução pro nosso povo eu vou dá
Negócio bom assim ninguém nunca viu
Tá tudo pronto aqui, é só vim pegar

Aluga-se
Cláudio Roberto e Raul Seixas

Aparte feito, Pedro vê seu projeto desmoronar e precisa lidar com as crudelíssimas consequências do processo. A ansiedade cria marcas visíveis que se mantêm num futuro diferente e remetem a um passado longínquo que grita pela pureza, pela liberdade e, principalmente, pela natureza. Reis coloca em tela a realidade de vários servidores públicos que se viram tomados por medidas surreais e despropositadas; gerentes que viram vidas de pessoas que eles conheciam serem destruídas; ofertas insistentes de encerrar carreiras com anos de dedicação em PDVs, e cria uma doença para representar as muitas que surgiram no período.

A multiplicidade também se faz presente no roteiro de Homem Onça, escrito a seis mãos por Fellipe Barbosa, Flávia Castro e Vinícius Reis. Tanto na época como hoje, nem todo mundo enxerga esses movimentos da mesma maneira, e há aqueles que sofrem e os que parecem não se importar. Há também os carreiristas, figuras tradicionais na estrutura estatal, aqueles que fazem exatamente aquilo que os chefes querem para ter algum benefício com isso, por mais que esteja prejudicando alguém. Os sentimentos variam entre o espectador e os colegas de Pedro, e a não-linearidade do roteiro atrapalha um pouco essa dinâmica. É como se sempre se quisesse saber ou ter um pouco mais um pouco mais de tempo com alguém, mais isso não é dado.

Homem Onça
Foto: Divulgação

Aliás, se as figuras do ambiente profissional de Pedro despertam interesse, falta magnetismo ao núcleo familiar, em especial às duas esposas. Ainda que as atrizes Silvia Buarque (Os Pobres Diabos) e Bianca Byington (Noite de Reis) estejam bem, não há muito o que fazer com o que têm. O desequilíbrio alcança a geração seguinte. A filha até começa com uma participação promissora, apesar do discurso artificial, mas a personagem se perde, e o enteado é ainda mais fraco. Se havia uma ideia de falar da comunicação e diferença geracional, ela não funciona.

Ainda assim, Homem Onça tem contexto e tem memória. E tem, não se pode deixar de falar, Chico Díaz fazendo o papel deste homem que se perde e se encontra depois do trauma que esse país chamado Brasil causa naqueles que abrem mão de suas vidas para se dedicar a ele. E o que foi na Vale foi em todas as outras empresas, das grandes às pequenininhas. E continua sendo. Pedro é um sobrevivente. Quantos servidores públicos não tiveram o mesmo destino de Dantas?

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades

O Tempo não Para
Cazuza e Arnaldo Brandão

Um grande momento
Bolsada na cara

[49º Festival de Cinema de Gramado]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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