Crítica | Outras metragens

Stone Heart

Da natureza do homem

(Stone Heart, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Animação
  • Direção: Humberto Rodrigues
  • Roteiro: Humberto Rodrigues
  • Duração: 9 minutos

Depois de muito descaso com meio ambiente, experimentos nucleares e guerras sem fim, o mundo tornou-se uma grande sucata, onde não há mais nada para ver além de destroços, objetos abandonados e lixo tóxico. Os seres humanos se transformaram em criaturas de pedra que vagueiam prontas para virar pó a qualquer tropeço. Existe algo que vem para mudar essa realidade, e trazer o senso de humanidade de volta a esse mundo, e com ele, outras características. Esse é o futuro distópico de Stone Heart, curta de animação amazonense de Humberto Rodrigues.

O curta tem uma animação ainda dura, mas bastante competente em sua composição, principalmente no modo como trabalha as criaturas de pedra. O universo criado impressiona com a variedade de ambientes, de fábricas abandonadas, vigas retorcidas de prédios demolidos e carros abandonados na estrada, além de iniciativas ousadas nas transições de clima e tempo. É bom ver a animação brasileira trilhando novos caminhos e, cada vez mais, sendo produzida por mais gente, de vários lugares do país.

A ousadia de Stone Heart também está na temática, controversa. O roteiro, assinado pelo próprio diretor, vai lá atrás buscar a teoria hobbesiana e aposta nela, sem nunca deixar de ser crível, até porque, no momento pelo qual a humanidade passa atualmente, é muito mais fácil acreditar em Hobbes do que em qualquer outro pensador que seja otimista quanto a natureza humana. Se o mundo desanda lá fora, há fatores internos que ressaltam o efeito: o fato de estar preso há 18 meses observando as pessoas e se decepcionando com elas funciona como uma lente de aumento.

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Quando, no curta, se enxerga que o reencontro da humanidade traz o egoísmo e a maldade imanentes da espécie, existe um quê de identificação triste. É como se o ser humano, por mais absurdo e sem sentido que seja, soubesse que o próprio ser humano é assim. Em um mundo onde o individualismo é o que manda, onde as vidas que se perdem são menos importantes do que as vontades mais idiotas de uma pessoa, que se nega qualquer coisa para ter uma vantagem ou um benefício, que se faz de tudo para manter um privilégio, onde a divisão é impensável, não há como não ver sentido naquilo que se assiste.

Um grande momento
Impossível tocar

[49º Festival de Cinema de Gramado]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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