Crítica | Festival

Cavalo de Santo

(Cavalo de Santo, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Mirian Fichtner, Carlos Caramez
  • Roteiro: Mirian Fichtner, Carlos Caramez
  • Duração: 71 minutos

Sou cavalo de santo
Montaria de Ogum
Sou de ketu de bantu
Quebrando quebranto na mão de Olorum
Olorum di dé

O batuque é quase que uma forma genérica de se referir a religiões afro-brasileiras de culto aos orixás frequentes no Rio Grande do Sul, no Maranhão e no Pará. O poeta e africanista Alberto da Costa e Silva — também presente no documentário Servidão — reconta que os primeiros escravos trazidos para o Brasil vinham da Alta Guiné e posteriormente da Costa dos Escravos (Nigéria, Benin e Gana por exemplo integravam esse território); o grupo mais preponderante no Sul do Brasil era da Guiné-Bissau, logo o culto religioso sofreu modificações e não exatamente o candomblé mas algo semelhante, intitulado batuque. E nessa manifestação, o “Cavalo de Santo” é aquele que recebe a energia do orixá, através do qual ele se manifesta.

Fruto do trabalho e da pesquisa visual da fotógrafa Miriam Fichtner ao longo de décadas, o documentário Cavalo de Santo, que abre a mostra intitulada “Gauchão” do Festival de Gramado é dirigido por ela e por Carlos Caramez. A premissa do filme parte da curiosidade que é o Rio Grande do Sul, tão lido pelo resto do Brasil como território predominantemente branco por conta das migrações europeias, especialmente de alemães e italianos, ser também terra de negro.

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Mas quem sabe disso? As populações negras e seu modo de viver são invisibilizados tanto pelo racismo vigente quanto pela denominação do “gaúcho” como um povo inclusive separatista, com características culturais que também o aproxima dos Argentinos e Uruguaios — sem esquecer que o Uruguai inclusive já pertenceu ao Brasil quando foi anexado ao reino português como a província da Cisplatina.

Para contrapor essa narrativa ideológica do estado como branco e europeu Cavalo de Santo então segue uma formulação bem convencional ao convocar outros historiadores e antropólogos, figuras importantes como Zulu Araujo, ex-presidente da Fundação Palmares, para mencionar como o período da Charqueada nos pampas, especialmente na região de Rio Grande — onde começa a colonização no Sul — ajudou a violentar a resistência das populações negras escravizadas e fundar o mito caucasiano. Mas que mesmo perante tanto sofrimento, inclusive transposto para a lenda do Negrinho do Pastoreio, conseguiram fundar sua cultura e criar o Batuque como religião e resistência.

Batuque, tuque, tuque!
todo o muque no tambor.
Puxaram o corpo cá prá longe mas a alma espichou, e as raízes crisparam-se lá
e o caule é este tambor, e a seiva, este som de cratera, que a gente vai fundo buscar

Cavalo de Santo aborda inclusive como o 20 de novembro, o dia da Consciência Negra, surge por intermédio da articulação do Movimento Negro de Porto Alegre nos anos 70, puxado pela liderança do poeta Oliveira Silveira (autor do Tuque, Tuque!) e como a capital gaúcha é hoje a cidade brasileira com maior número de terreiros afro-religiosos, superando Salvador e Rio de Janeiro. O antropólogo Milton Guran conta que as casas do Rio Grande do Sul são mais numerosas mas comportam uns 60 filhos enquanto as de Salvador tem 1.200 cada.

Está tudo no Mapa das religiões publicado pela Fundação Getúlio Vargas em 2011, onde
Porto Alegre é a capital das religiões de matriz africana (com maior diversidade e com maior número de casas de culto). E Cavalo de Santo vai ilustrar essa informação apresentando não só vários terreiros e autoridades religiosas como as festividades que atraem gente de todo o Brasil e do mundo. Já ocorrendo já 25 anos na beira do Guaíba, a Festa para Oxum na praia de Ipanema reúne 30 mil pessoas no dia 8 de dezembro. Também tradição é o cortejo no imponente Mercado Municipal de Porto Alegre, que tem um axé plantado pelo príncipe Custódio e até hoje se faz o bará no local.

Essa espécie de cultura subterrânea que não é enxergada pelas elites é retratada largamente em Cavalo de Santo, com direito até a cenas que mostram ritos quase sempre restritos aos filhos, filhas de santo e frequentadores dos terreiros.

“Terreiros são laboratórios de democracia popular”

Lugar onde a população mais se autodeclara afro-religiosa e mais discrimina, o Rio Grande do Sul ganha tonalidades pouco conhecidas através desse documentário. Entre os muitos depoentes, mãe Iêda de Ogum talvez seja a mais carismática e explana que a luta para manutenção do direito à existência dos afroreligiosos é diária, já que muitos de dia negam a religião e de noite tocam tambor. Cavalo de Santo inclusive traz algumas manifestações e passeatas contra a proibição de sacrifícios humanos em ritos e a perseguição dos povos de terreiro – como do batuqueiro João Alberto, morto por seguranças do supermercado Carrefour em novembro do ano passado.

Nomes importantes para a tradição afro-religiosa no estado como Giba Giba, de Pelotas, Mestre Borel e os toques e cantos de terreiros são citados e celebrados. Outras casas de umbanda são mostradas e a inusitada reunião dos quimbandeiros, com Cavalo de Santo se debruçando sobre o fato de que a quimbanda é a expressão religiosa mais difundida no estado com seu culto aos exus e pomba giras. A Penha Gitana que ocorre no sítio de Neco de Oxalá e Ana de Oyá se assemelha a uma festa cigana no terreiro.

O documentário traz outras peculiaridades como o fato do pai de santo usar bombacha (vestimenta típica dos gaúchos), do churrasco ser parte da comida de santo assim como a polenta (especialmente para Oxum).

Porém Cavalo de Santo reúne poucos planos inspirados, frutos da documentação de Miriam Fichtner já que esteticamente é feito com desleixo, sem uma estratégia de abordagem que fuja do lugar comum que é o documentário expositivo e burocrático. Mas o assunto é fascinante e importante de ser alcançado por um público amplo só que não necessariamente na forma de um audiovisual.

Um grande momento
Vista aérea da celebração para Oxum na praia

[49º Festival de Cinema de Gramado]

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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