Crítica | Festival

Hand Rolled Cigarette

Bem bolado

(手捲煙, HKG, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Chan Kin-long
  • Roteiro: Ryan Ling, Chan Kin-long
  • Elenco: Gordon Lam, Bipin Karma, Michael Ning, Ben Yuen, Tai Bo, Chin Siu-ho, Tony Ho, Chu Pak-hong, Aaron Chow, To Yin-gor, Bitto Singh Hartihan, Anees
  • Duração: 101 minutos

Hong Kong deixava de ser uma colônia britânica e a história não é diferente do resto do mundo, a alguns privilegiados, algumas regalias foram garantidas, à maioria, nada. As primeiras imagens de Hand Rolled Cigarette, em preto e branco, mostram um grupo de soldados em um campo em Sha Tau Kok. Andando pela mata, comentando a realidade da colônia/território autônomo, falando sobre a vida e brincando com uma lata de sardinha que acompanhará o protagonista por todo o filme de Chan Kin-Long. Como ela, muita coisa vista ali naquela sequência servirá como ligação com o passado, do abandono da rainha, ao cigarro industrializado que contraria o título.

Winston. Esta, aliás, é a marca que aparece de vez em quando e vai ser importante para a história, pois é o nome de um dos amigos que estavam no batalhão de Chiu, e que vai ser o motivo de sua caminhada culpada e aquilo que o levará a uma jornada pela reparação de um erro no passado, que o diretor entregará ao espectador em pequenas inserções também em preto e branco ao longo do filme. Também o que definirá a profundidade do personagem e as novas relações que se estabelecerão a partir dali.

Hand Rolled Cigarette
© 2020 Hand-Roll Cigarette Film Production Company Limited

Em sua estreia, o diretor Kin-Long filma com muita segurança. Boas transições de cenas e o modo como a câmera se relaciona com os personagens, deixam evidente a sensação de deslocamento e sufocamento. Planos abertos mostram a cidade e a movimentação no ambiente, enquanto planos fechados colocam o espectador sempre muito próximo a Chiu e Mani, que passa a fazer parte de sua vida. E é muito significativo que esses dois homens, um honconguês e um indiano, estejam ali dividindo o espaço em um lugar onde os esquecidos não conseguem se colocar e precisam encontrar caminhos para ter alguma possibilidade de sucesso.

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Hand Rolled Cigarette trafega em ambientes muito próximos mas também diversos, assumindo a forma de um noir moderno. Abusa das cores quentes e da violência gráfica, volta aos clássicos de máfia e faz tudo de forma muito orgânica. Em seu leque de personagens, une os ratos que se digladiam enquanto os chefões apenas observam, os sádicos, os ingênuos e os magoados. O ritmo é frenético e mesmo nos momentos em que a ansiedade não está em cena, quando há uma massagem, uma visita a um velho amigo ou num lanche de rua, ela está à espreita.

Hand Rolled Cigarette
© 2020 Hand-Roll Cigarette Film Production Company Limited

A habilidade na manutenção do clima e na estética impressionam e transformam o filme num espetáculo frenético, mas que não deixa de lado o violento. Em se pensar no bolado à mão, sem maquinaria e sem pólvora para o queimar mais fácil, que se transfere para a narrativa, o modo como o roteiro, assinado por Kin-Long e por Ryan Ling, vai se amarrando também é extremamente funcional e surpreende tanto pelo inusitado da comunhão como pelo final. Tudo coroado por boas atuações de Gordon Lam e Bipin Karma nos papéis principais.

Hand Rolled Cigarette é um daqueles exemplares que chama a atenção nos primeiros minutos, com uma brincadeira besta num campo de guerra entre amigos, e faz isso triplicar de tamanho em seguida com as cores e a vibração de sequências frenéticas nos corredores de prédios e entres as bancas das feiras de rua. É um filme que parte do equívoco do não-lugar, da impossibilidade e da crise como justificativa, mas encontra uma representação tão eletrizante e esteticamente elaborada que supera a questão.

Um grande momento
Minha bola caiu

Hand Rolled Cigarette
© 2020 Hand-Roll Cigarette Film Production Company Limited

“Hand Rolled Cigarette” faz parte da seleção da 20º NYAFF, que acontece de 6 a 22 de agosto de 2021.
O New York Asian Film Festival é vinculado ao Lincoln Center e é o único evento dos Estados Unidos dedicado exclusivamente ao melhor do cinema asiático.

[20th New York Asian Film Festival

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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