Crítica | Festival

Time

A vida é curta, a morte é certa

(殺出個黃昏, HKG, 2021)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Ricky Ko
  • Roteiro: Ho Ching-Yi, Lam Ka Tung
  • Elenco: Patrick Tse, Fung Bo-Bo, Suet Lam, Chung Suet-Ying
  • Duração: 99 minutos

Quem não se entregar ao prólogo de Time deve estar tendo um mau dia, porque a fantasia cinéfila de Ricky Ko é uma delícia. Brincadeiras à parte, porque ninguém é obrigado a gostar de nada, a recriação de uma época para apresentar o trio de assassinos Chau, Fung e Chung esquenta o coração daqueles que gostam de um bom filme de luta. O espectador é transportado ao passado com a trilha e com a imagem envelhecida e vê os três em ação com movimentos calculados, ótimas coreografias, câmeras lentas e divertidas inserções de animação. Difícil não se apegar. De lá é jogado no presente e entende logo o título. Envelhecer é difícil para qualquer um.

Com toda a sua habilidade com as lâminas, Chau virou um cortador de massas em um restaurante qualquer; Fung tornou-se dona de uma casa noturna onde se apresenta e uma avó em conflito constante com a nora; já Chung passa a maior parte dos seus dias com uma prostitutas por quem é apaixonado. O roteiro de Ho Ching-Yi e Lam Ka Tung define os papéis de cada um desses personagens e dá a eles elementos que farão com que o conjunto funcione, como se um fosse o complemento para o outro, transformando suas jornadas de solidão individual. Os atores realizam e Ko traz isso para o visual, deixa perceptível esteticamente.

Time (2021)
©2020 Homemade Holdings Limited. All Rights Reserved.

O humor ácido domina o filme. O passado que estava sempre chamando aqueles três se realiza no grupo “guardiões dos idosos”, para pessoas em estado terminal, em uma espécie de sangrentos suicídios assistidos, anunciados em panfletos de rua, do tipo “arranque aqui seu papelzinho”. Mas, na verdade, por trás de todo o riso, Time é um retrato bastante cruel do envelhecimento, de como é perder o seu espaço, seu emprego, sua importância e o seu lugar no mundo. Embora o local seja muito específico, e se fale de Hong Kong e seu sistema de saúde, seu tratamento familiar ou empregatício, a relação com os idosos é universal.

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A reviravolta do filme vem com a entrada em cena de uma nova personagem: Tsz-Ying. Nova em aparição e em idade, ela vem para mostrar um outro lado igualmente confuso nas relações humanas. Abandonada pelos pais e pelo namorado, a adolescente encontra em Chau, num primeiro momento, uma espécie de abrigo que não havia em nenhum outro lugar. Há questões de integração, inclusão e aceitação bem interessantes trabalhadas aqui e de maneira muito simples, às vezes usando uma letra só.

Time
©2020 Homemade Holdings Limited. All Rights Reserved.

Time vai se equilibrando bem entre o drama e a comédia por boa parte do tempo e tem uma história realmente cativante, mas acaba se deixando levar pelo melodrama a partir de certo ponto. É possível ver que o diretor, além de todo o apego por aqueles personagens tem uma grande admiração pelos atores, em especial por Patrick Tse e Fung Bo Bo e é ao querer mostra os dotes da grande musa do cinema honconguês que deixa a trama escorregar, tornando-a pesada demais e perdendo o ritmo, mas nada que não consiga recuperar depois.

A experiência vai trazer coisas que você não esperaria ver no cinema protagonizadas por octogenários, como treinos com laranjas, lutas em clínicas clandestinas, tortura com pimenta e outras coisas mais que vão valer cada minuto de projeção. Entre os deslizes de ritmo, muitas cenas de ação inusitadas, pancadas pesadas sobre o que é envelhecer e uma bonita mensagem sobre a força da amizade, Time é desses filmes que ficam com o espectador depois que acabam. E, apesar de todos os pesares, dão até saudade.

Um grande momento
Na clínica

Time (2021)
©2020 Homemade Holdings Limited. All Rights Reserved.

“Time” faz parte da seleção da 20º NYAFF, que acontece de 6 a 22 de agosto de 2021.
O New York Asian Film Festival é vinculado ao Lincoln Center e é o único evento dos Estados Unidos dedicado exclusivamente ao melhor do cinema asiático.

[20th New York Asian Film Festival

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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