Crítica | Festival

Ninja Girl

Ele não

(シュシュシュの娘, JAP, 2021)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Yû Irie
  • Roteiro: Yû Irie
  • Elenco: Saki Fukuda, Junpei Hashino, Arata Iura, Kirian Jou, Mayumi Kanetani, Takurô Kodama, Hiroaki Matsuzawa, Koji Mitsumizo, Ryôka Neya
  • Duração: 88 minutos

Ninja Girl já começa lembrando o Brasil. Não de uma forma boa, o que, infelizmente, tem se tornado uma coisa comum. Suas primeiras cenas, são inserções de uma negociata captadas por uma câmera escondida e os protagonistas fazem parte de um governo populista cujo objetivo maior é uma campanha xenófoba para expulsar imigrantes de uma pequena comunidade rural. Com direção de Yû Irie, a comédia política fala de corrupção e, de certo modo, critica a apatia da população.

Sua protagonista é a discreta Miu. Introspectiva, ela é alguém que se adequou ao local: divide seu tempo entre o trabalho em uma repartição pública e os cuidados com o avô acamado. Irie destaca a falta de perspectiva da personagem e sua solidão, ele contrapõe sua rotina matinal, embalada com músicas dos passado e uma alegria solitária com os bullyings diários da chefe. Suas poucas interações positivas são com uma colega, no horário do lanche, mas tudo muito fugaz.

Ninja Girl
© Yu Irie & cogitoworks Ltd.

Se esteticamente a protagonista é alguém que vai diminuindo, espremida na janela de exibição e perdida nos planos; corporalmente, a atriz Saki Fukuda vai encolhendo para dentro de si mesma. A cada violência que sofre, a cada medo, malfeito ou decepção, seu corpo reage retraindo-se e sua voz diminui o volume. E tudo muda quando ela está sozinha, ou longe daquilo que suga a sua vida. Há uma chave para Ninja Girl, o evento com Mano, que deixa sua relação com o ambiente muito evidente.

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É este evento também que faz com que sua realidade se transforme completamente e ela descubra sua verdadeira função no mundo: Miu descobre sua linhagem Ninja. Mantendo o tom crítico, Irie se entrega ao humor a partir de então. Com um livro parcialmente queimado, sem instruções e ninguém para ensinar nada, ela segue numa jornada de treinamento heterodoxa e vai fazendo o que pode. Seu avô não poderia estar mais enganado sobre o seu maior dom e suas primeiras missões são pura diversão.

Ninja Girl
© Yu Irie & cogitoworks Ltd.

O arco de Miu é bem interessante, até por ser tão diferente do que estamos acostumados a ver. O modo como ela parte de si mesma para se transformar em outra pessoa, usando aquilo que estávamos vendo o tempo todo é, no mínimo, curioso, e vale cada minuto do desfecho catártico. O roteiro, também assinado pelo diretor, reserva bons momentos aos outros personagens, como as falas do avô sobre sua desenvoltura digital e o confronto entre ninjas também.

E a alegoria pega forte, ainda mais para gente daqui. Indo além, muito além do filme, Ninja Girl nos faz pensar no quanto nos encolhemos quando tomamos conhecimento desse monte de coisa absurda. No quanto sabemos e vemos passar para, logo em seguida, termos os mesmos rostos estampando novos escândalos, em novos vídeos de negociatas, ou em CPIs de vacinas ou seja lá o que for. Não que se defenda o uso de dardos envenenados e zarabatanas ou ninjas atacando no lugar de votos democráticos, mas a falta de solução é real.

Um grande momento
“Um ninja!?”

Ninja Girl
© Yu Irie & cogitoworks Ltd.

“Ninja Girl” faz parte da seleção do 20º NYAFF, que acontece de 6 a 22 de agosto de 2021.
O New York Asian Film Festival é vinculado ao Lincoln Center e é o único evento dos Estados Unidos dedicado exclusivamente ao melhor do cinema asiático.

[20th New York Asian Film Festival

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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