Crítica | StreamingFestival de Brasília

Ainda Temos a Imensidão da Noite

(Ainda Temos a Imensidão da Noite, BRA, 2019)
Drama
Direção: Gustavo Galvão
Elenco: Ayla Gresta, Gustavo Halfeld, Steven Lange, Marat Descartes, Vanessa Gusmão, Hélio Miranda, Clemente Tadeu Nascimento, Bidô Galvão, Fernando Teixeira
Roteiro: Gustavo Galvão, Barbie Heusinger, Cristiane Oliveira
Duração: 98 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

Não incomode! Aqui nesse quadrado se preza pelo silêncio. A qualquer hora, em qualquer lugar, o silêncio.

Um dos lugares mais descolados e inclusivo fecha suas portas, pois não consegue arcar com as sucessivas multas por ferir a lei do silêncio. Aquele restaurante, famoso pela feijoada nos almoços de sábado, tem que abandonar as caixas de som porque a polícia apareceu depois de queixas da vizinhança por causa do barulho. Dois jovens são detidos em uma quadra por tocarem violão na praça às 8 horas da noite.

Os casos absurdos parecem saídos de uma ficção, mas são reais e fazem parte do cotidiano de Brasília. Este é o modo como se a mesma cidade que foi berço de algumas das maiores bandas de rock do país lida com o som. O contrassenso, que aflige não só a juventude do local, é o tema principal de Ainda Temos a Imensidão da Noite, novo filme de Gustavo Galvão.

Ainda que o filme tropece principalmente nas atuações, o diretor consegue alcançar exatamente o sentimento de inadequação com um local que repele qualquer lampejo de extroversão criativa. A frieza da cidade, em suas muitas linhas retas e nos aprisionamentos de seus cobogós contrasta com a ânsia pela liberdade dos corpos jovens que buscam na música um espaço para se colocar no mundo.

Como brasiliense, Galvão fala diretamente àqueles que conhecem o Plano como ele, criando conversas paralelas com públicos distintos, o que é bem interessante. Com os primeiros ganha pontos extras ao despertar a nostalgia de um passado que já não existe mais, principalmente ao relembrar rotas clássicas da noite brasiliense, como a da 9. Já com os outros, traz realidades comuns à juventude e ao seu desacerto com o tempo, espaço e pertencimento.

No fundo, o grande acerto de Ainda Temos a Imensidão da Noite está justamente no fato de ser uma história muito própria e específica de um lugar que odeia os jovens e sua música, mas que consegue de alguma maneira encontrar a universalidade na inadequação que é própria da fase. Embora aquele passado saudado não exista mais, há uma força que sempre buscará por ele, pois é inerente do ser humano.

Um filme para todos, mas que vai agradar ainda mais os brasilienses.

Um Grande Momento:
Clemente fala da 9.

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[52º Festival de Brasília]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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