Crítica | Outras metragens

Ajude os Menor

Os que ficam fora desde cedo

A força de Ajude os Menor, dirigido por Janderson Felipe e Lucas Litrento, está no preto-e-branco e no silêncio entre os ruídos de obra. A história é simples: um entregador de aplicativo chega num prédio em construção para almoçar com seus amigos pedreiros e, enquanto isso, um conflito trivial entre o engenheiro, genro do dono da construtora, e o mestre de obras explode em segundo plano. Essa situação vira o motivo do filme, que usa a tensão para revelar as fissuras de classe, poder e pertencimento.

O curta sabe que não precisa de explosões ou reviravoltas mirabolantes. Ele respira pela fotografia caprichada, pelo uso do espaço da construção e, principalmente, pela trilha sonora de Paulo Gama, que transita entre referências ao faroeste clássico e uma pulsação quase corporal que guia o espectador através dos olhares e silêncios dos personagens.

O elenco de Ajude os Menor é composto majoritariamente por jovens atores demonstra que o filme não se apoia apenas na estética ou na intenção social, mas em performances que resistem e questionam. Cada presença em cena – seja o motoqueiro que traz comida, seja o pedreiro que observa aquilo tudo com uma mistura de resignação e ironia – reforça a ideia de que filmar em contexto de trabalho de verdade, pode produzir uma textura rara.

O roteiro, adaptado de um conto do próprio Litrento, não olha para o mundo do trabalho como um cenário platônico ou um doc social didático. Pelo contrário, ele busca saber das tensões, dos olhares atravessados e das relações de força. Embora haja catarse, a violência não é dramática no sentido hollywoodiano, é econômica, cortante, quase como se fosse a extensão natural da relação de hierarquia entre patrão e trabalhador. É o tipo de crítica que não precisa gritar para ser ouvida.

Mesmo assim, o filme não é perfeito. Em 15 minutos, inconcluídos, o filme abraça muita coisa e às vezes parece querer marcar território em todas as frentes (classe, trabalho, olhar periférico e gênero cinematográfico). Essa ambição pode deixar pedaços um pouco soltos, como se cada elemento – trilha, composição de quadro, narrativa – competisse quase sozinho por atenção. Mas há também algo visceral em deixar esses pedaços respirarem, como se o espectador fosse convidado a completar o significado a partir de suas próprias experiências.

No fim, Ajude os Menor funciona como uma pequena bomba em preto-e-branco: simples na superfície, rica em texturas políticas e estéticas, e feita para falar de mundo sem recorrer a panfletos cinematográficos. É um filme que dialoga com tradições do faroeste e as subverte para falar sobre quem realmente “trabalha com as mãos sujas de cimento” enquanto a engrenagem social continua girando sem eles.

Um grande momento
Para com isso

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, Critics Choice Association, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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