Crítica | CinemaDestaque

Alerta Máximo

Surpresas insuficientes

(Plane, EUA, RUN, 2023)
Nota  
  • Gênero: Aventura
  • Direção: Jean-François Richet
  • Roteiro: Charles Cumming, J.P. Davis
  • Elenco: Gerard Butler, Mike Colter, Yoson An, Daniella Pineda, Tony Goldwin, Paul Ben-Victor, Remi Adeleke, Joey Slotnick, Evan Dane Taylor, Claro de los Reyes, Oliver Trevena
  • Duração: 105 minutos

Os anos 1990 foram profícuos em relação a thrillers de ação ambientados no ar, os chamados ‘filmes de avião’. Passageiro 57, Momento Crítico e Força Aérea Um fazem parte de um punhado de produções de sucesso que reduzia seu espaço cênico ao campo de observação desse cenário, onde toda a ação física era ambientada entre duas asas. Décadas depois, filmes como Voo Noturno, Plano de Voo e Sem Escalas tiveram a intenção de resgatar esse subgênero com igual sucesso de bilheteria, o que prova a predileção do público com esse material. Alerta Máximo estreia nos cinemas com a responsabilidade de retomar essa tradição bem sucedida, trazendo o espectador de hoje para esse grupo. A diferença é que essa estreia parece um ‘filme de avião’, mas não é. 

De duração enxuta, a primeira meia hora de Alerta Máximo verdadeiramente nos prepara para uma produção do gênero. O piloto, vivido por Gerard Butler (300 e Tempestade), é um contraponto ao personagem que embarca em seu voo, um condenado por homicídio em transferência; logo, está claro o cenário do desastre. Um ator reconhecido como herói de ação precisa enfrentar um bandido que tomará o ambiente de assalto e fará reféns, certo? Errado. Após uma turbulência feroz que causa mortes acidentais, o avião precisa pousar, e aí sim é que o título mostra que sua verdadeira montanha russa se ambienta em terreno concreto, o que causa uma bem-vinda surpresa a um filme que não se imaginava ter qualquer uma. 

Alerta Máximo
Divulgação

Até a quebra de contexto promovida pelo filme (e também motivada por ela), o espectador é motivado por uma narrativa cheia de possibilidades divertidas que são elaboradas por roteiro e direção, ainda que nada seja novidade. Quando a segunda parte de Alerta Máximo se inicia e entendemos que se trata de filme de sequestro desconstruído, os eventos desandam naturalmente e o filme vai perdendo o frescor inicial, que era bem mais presente. Resta a adrenalina que é descarregada a cada novo bloco de cenas, mas que não tem uma regularidade qualitativa. O que vemos é uma produção que tenta sair de um lugar comum constante, e que é frequentemente sabotada pela bagagem cinéfila que trazemos, além de não ser necessariamente uma produção exemplar do ponto de vista imagético. 

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O diretor Jean-François Richet foi muito premiado, incluindo com o César, pelo seu trabalho em Inimigo Público n.1, há 15 anos. Esse é o seu quarto filme desde aquele, sempre tendo em discussão o cinema direto para oferecer. Entre suas nove produções até hoje, apenas duas não eram do gênero “ação-brucutu-tiro-e-macho”, e isso não pode ser apontado como um problema, mas é uma marca; o que ela significa e para qual lugar ela o leva, já é a questão a ser levantada aqui. Independente do gênero, o que Richet deveria acessar era o resultado estético-imagético de seus serviços, e o quanto eles significaram para as obras. Esse seu novo filme não passa de um pacote de desenvolvimento internacional, uma co-produção sem brilho.

Alerta Máximo
Divulgação

Um diretor premiado (com merecimento, diga-se) como Richet não consegue passar em branco quando exigido, e aqui e ali Alerta Máximo vislumbra suas capacidades. Mas o que temos à mão é um produto genérico, de alcance diminuto, e que serve como entretenimento naquela duração específica, indo pouco além. O elenco tem pouco a fazer, até porque, como um bom veículo de gênero, o que vemos são estereótipos: o passageiro ranzinza, a aeromoça gente boa, o co-piloto pai de família, os vilões absolutamente maus de tudo. Nada é relativizado, mas nem deveríamos achar que existiria algo do tipo; é uma receita de bolo sem muito gosto diferenciado, mas bastante reconhecível. 

Algo, no entanto, é um diferencial naquele grupo, exatamente onde deveria ser. Apesar de já ter feito comédias (A Verdade Nua e Crua) e dramas (Coriolano), a zona de conforto de Gerard Butler é esse lugar aqui – ou seria. Apesar de estar em um thriller movimentado, o movimento para a ação não passa necessariamente por seu personagem, que é um mero piloto de avião; ao contrário do que poderíamos prever, não, seu personagem não é um ex-guerrilheiro, combatente, com passado no exército nem nada. Já tendo portado todo tipo de arma em cena, Butler convence muito como um homem comum, que mal consegue segurar um revólver, convencendo no desconforto que sente diante do extraordinário. A cena-chave de Alerta Máximo é uma das mais esquisitas sequências de luta recentes, porque nada faz muito sentido; esse é o momento mais bem filmado da produção, e mais um motivo pelo qual vale a pena encarar esse passatempo. 

Um grande momento

Após o telefonema para a filha

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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