Crítica | Catálogo

Ambulância – Um Dia de Crime

De volta ao começo

(Ambulance, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Michael Bay
  • Roteiro: Chris Fedak
  • Elenco: Jake Gyllenhaal, Yahya Abdul-Mateen II, Eiza Gonzalez, Garret Dillahunt, Jackson White, Keir O'Donnell, Cedric Sanders, Devan Chandler Long, A Martinez, Jesse Garcia, Olivia Stambouliah, Moses Ingram
  • Duração: 136 minutos

Michael Bay tinha entrado há muitos anos em uma zona de (des)conforto, ao dirigir e produzir obras de qualidade bem abaixo do duvidoso exclusivamente para apreciação imediata e sem qualquer proposta que os ampliassem; em resumo, Transformers, uma cinessérie que foi muito além do recomendado pela Organização Mundial de Saúde. Filme que tinham tirado do cineasta qualquer traço de inventividade, mas além disso: não havia prazer em um filme de Bay há muito anos. Ambulância, estreia nos cinema dessa semana, retoma não apenas a leveza e a espontaneidade desse cineasta, mas o faz consciente do lugar que estava deixando de ocupar durantes todos esses anos; o que emerge agora é um cineasta profundamente conectado com o que de melhor já produziu, e disposto a refletir imagens no hoje.

Ele tem ciência de que se trata de uma volta às origens, ao reencontrar um Bay de quase 30 anos atrás. O filme sinaliza explicitamente isso ao citar A Rocha e Os Bad Boys em cena, quase como um aceno a um cinema que não apenas ele não faz mais – ninguém o faz. Dentro do que se espera de uma obra cinematográfica alinhada ao blockbuster, ou seja, para consumo indiscriminado por quaisquer público, o que o cineasta realiza aqui, ao resgatar o cinema de ação mais tradicional ao dispensar o uso indiscriminado do CGI, é se posicionar a favor da maquinaria dentro de uma indústria dominada pelo que é conseguido na pós-produção, com a ajuda de pixels ilimitados.

Ambulância - Um Dia de Crime
Universal Studios

Em toda sua duração, Ambulância reflete de maneira silenciosa sobre dois painéis que o cinema vem abordando nos últimos anos: a situação da repatriação de soldados em guerras recentes e suas diminutas possibilidades diante do que serviram ao país, e a panaceia cultural que forma a fauna californiana. A segunda estampa seu elenco, mas não toma de assalto a narrativa, formando seu mosaico cultural étnico de forma exemplar e colocando atores como Jake Gyllenhaal e Yahya Abdul-Mateen II como improváveis irmãos, que o filme filma esse laço através de passagens onde testemunhamos essa ligação mais forte que o sangue.

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O personagem de Abdul-Mateen II é um desses soldados que, ao retornar para casa, encontrou uma ausência de possibilidades, e o filme sutilmente aponta para esse caráter político que se repete ao longo dos anos (e guerras), como se não houvesse lugar para quem eles julgam heróis. Não há emprego, não há atendimento médico, não há expectativa que faça com que seja possível sair de uma roda de tragédias diárias. O filme comete a picardia de assumir esse posicionamento, ainda que de maneira não-frontal, e com isso enfrenta esse conglomerado representado pelo cinema em larga escala, de onde discussões políticas não deveriam estar na pauta do dia de um candidato a milionário.

Ambulância - Um Dia de Crime
Universal Studios

Mais do que a narrativa e seus signos, o que chama a atenção verdadeiramente em Ambulância é a carpintaria da assinatura de Bay. Disposto a trazer um olhar rejuvenescido às imagens que capta em seu arsenal descontrolado, o filme não desafia qualquer exemplar de Velozes e Furiosos – porque sua mise-en-scène desafia convenções tradicionais ao experimentar uma autoralidade que o diretor há muito não concebia. Seu passeio pelas ruas, prédios e cenários de Los Angeles promovem uma injeção de adrenalina principalmente porque estão limpas, e amplas em sua proposta de capturar o maior número de movimentos possíveis de sua ação desenfreada. Em uma descarga non stop, o filme não abdica de tratamento estético apurado a cada nova capotagem.

Ainda que Bay ainda use os lens flares que lhe sejam peculiares, ainda que a câmera rode em torno dos personagens, tudo está mais comedido em busca de uma verdade imagética que há muito não víamos. Quando o filme protagonizado por Nicolas Cage e Sean Connery é citado, entendemos que a função de Ambulância é trazer um diretor que parecia abandonado em nome de uma distinção fácil, uma acomodação em busca de uma marca. Independente da duração, o que vemos nesse novo filme é um atestado de liberdade para com o sistema que move hoje a indústria. Michael Bay está claramente dizendo que sua zona de atuação pode ter mudado, mas ele ainda pode conduzir com maestria e reconstruir um legado para novas gerações, de um cinema que existe.

Um grande momento
A perseguição no estacionamento

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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