Crítica | Cinema

Amores Rebeldes

Amando e quebrando

(Lovecut, SUI, AUT, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Iliana Estañol, Johanna Lietha
  • Roteiro: Iliana Estañol, Johanna Lietha
  • Elenco: Sara Toth, Kerem Abdelhamed, Max Kuess, Luca von Schrader, Valentin Gruber, Melissa Irowa
  • Duração: 94 minutos

Nós somos tão modernos
Só não somos sinceros
Nos escondemos mais e mais
É só questão de idade
Passando dessa fase
Tanto fez e tanto faz

A Dança – Dado Villa-Lobos / Marcelo Bonfá / Renato Russo

Hormônios. Contestação. Descobertas. Ruptura. Definição de identidade. Não há nada mais difícil do que passar pelo caixote dessa mistura em forma de onda para se tornar adulto sem perceber. O modo de enfrentar a onda é variado, alguns se fecham em concha, outros mergulham, alguns pegam um jacaré. E na bagunça hormonal e todas as mudanças do corpo que ela provoca, vêm as experimentações. Conhecer o desejo, buscar o proibido e enfrentar o perigo. Estar junto com os seus, usar drogas lícitas e ilícitas, aplicativos de encontro, perder a hora, ficar de castigo e fugir de casa. Tudo isso está em qualquer lugar do mundo onde haja pessoas e uma sociedade, e também em Amores Rebeldes.

O longa dirigido e roteirizado por Iliana Estañol e Johanna Lietha segue três casais de adolescentes completamente diferentes para falar justamente de experimentação, do conhecer da paixão, do prazer, do amor. A imaturidade e a ingenuidade se misturam com um falso senso de poder e segurança comuns da idade, em caminhos que se cruzam num roteiro que consegue captar bem os sentimentos e sensações. Os filmes-mosaico geralmente são complexos justamente porque há um desequilíbrio na atenção aos personagens, conexões forçadas e, às vezes, uma desatenção ao tema para valorizar a forma, mas aqui isso não acontece.

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Amores Rebeldes
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema © Silverio Filmes

Embora fale especificamente de romance e dessa ligação tão confusa na adolescência, que mistura carência, tesão e autoafirmação, aqui com um encontro muito significativo no que diz respeito a inclusão, diga-se de passagem, Amores Modernos não consegue se desvencilhar do todo. Aliás, como desvencilhar isso do todo se é o desejo, mesmo que não seja sexual, que move essa fase da vida? Nessa confusão, o longa ganha pontos pela identificação, mesmo que refletida em atos nostálgicos e deslocados — afinal, outras tecnologias –, ou angustiando aqueles que passaram ou passam por isso com seus filhos.

Muito da força do filme vem do elenco. Sara Toth, Kerem Abdelhamed, Max Kuess, Luca von Schrader, Valentin Gruber e Melissa Irowa trazem suas verdades e assimilam seus personagens numa construção naturalista, que é consciente e tocante. As diretoras deixam o espaço livre, mas delimitam fronteiras. É engraçado como elas fazem os universos adquirirem contornos diferentes, há um senso de liberdade quando os jovens são os donos da tela, o que se transforma quando os pais estão presentes.

Amores Rebeldes
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema © Silverio Filmes

Com uma câmera inquieta como os personagens que acompanha — a fotografia e de Georg Geutebrueck e Steven Heyse — e um cuidado especial na construção desse universo adolecente, seja na captação como na escolha de locações, figurinos e maquiagem, Amores Rebeldes mergulha na onda sabendo que vai tomar o caldo, e passa pela barraca no quintal, pela pegação no banheiro, pelos vídeos na internet, pela falta de noção, o medo, a frustração e tantos outros sentimentos. Cada um dos casais, ou melhor, cada um daqueles indivíduos tateia uma verdade sua no outro. E se esconde, formando imagens distorcidas e assumindo máscaras complexas de uma realidade

Na verdade, por trás de tanto barulho, quebradeira e exagero, o que eles querem não é a atenção que todo mundo fala, eles só estão tentando encontrar o seu lugar em um mundo no qual eles não se sentem confortáveis e onde não querem repetir um modelo falido, mas também não foram apresentados a nenhum outro. Amores Rebeldes é também sobre isso.

Um grande momento
Essas pessoas na sala de jantar

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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