Crítica | Festival

Anistia 79

Anistia 79, de Anita Leandro, parte de um gesto que, no Brasil, nunca é neutro: abrir um arquivo. Não qualquer arquivo, mas imagens feitas por exilados brasileiros durante a Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, realizada em Roma, em junho de 1979, o maior encontro da esquerda brasileira fora do país. Quase cinquenta anos depois, esse material retorna como documento, ferida e pergunta. O filme entende desde o início que essas imagens não falam sozinhas e que o silêncio que as cerca é parte central daquilo que precisam dizer.

O eixo que organiza o documentário é a história de Denise Crispim. Militante política, presa grávida de seis meses, torturada sob custódia do Estado, mãe de uma filha nascida em cativeiro, e companheira de Eduardo Leite, executado após 109 dias de tortura. A história de Denise expõe as contradições da chamada anistia brasileira de 1979. Uma anistia que permitiu o retorno dos exilados e a libertação parcial de presos políticos, mas que também consolidou a impunidade dos agentes da repressão ao estender seus efeitos aos torturadores do regime.

É a partir desse corpo que o filme começa, quando observamos Denise e ouvimos, em off, o relato das atrocidades cometidas contra ela e Eduardo no Tribunal Russell II. O choque não vem do ineditismo da violência, mas da coexistência entre imagem e escuta. Ali, Anistia 79 se afirma como um filme sobre o testemunho, não apenas como relato histórico, mas como prática política. Naquele contexto, quando os Direitos Humanos ainda estavam em consolidação, o gesto começava a se consolidar como forma legítima de denúncia. 

As imagens recuperadas carregam esse deslocamento. As pessoas na conferência, mesmo que expostas a uma violência sistemática, aparecem ali em um momentos de comunhão, já que protegidas pelo exílio. O foco, mais amplo, não recai sobre os métodos de tortura, embora seja claro que eles não são um desvio, e sim uma tecnologia de poder, integrada a um projeto político e econômico. Há discursos memoráveis, figuras centrais da luta antiditatorial reconhecidas em tela, um material que é mais do que importante. É fundamental, sobretudo num país que insiste em não ter memória.

O dispositivo escolhido por Anita Leandro é o de colocar essas imagens em confronto com aquelas e aqueles que viveram o momento. Ver ou ouvir quem lutou pela anistia durante a ditadura militar refletindo sobre décadas de militância produz um campo de tensão entre lembrança e esquecimento, entre permanência e transformação. Anistia 79 aposta na reação, no olhar, nas interações, nos silêncios, nos vazios deixados pelo tempo. É um jogo interessante, sem dúvida. E também arriscado.

Trabalhar com arquivos dessa magnitude exige decisões formais que nunca são fáceis. A mescla de tempos, os encontros temporais, a alternância constante entre passado e presente acabam, em alguns momentos, diluindo a força bruta do material original. O impacto do resgate poderia se sustentar longamente no próprio arquivo, mas se fragmenta na tentativa de dar conta do hoje, e da história coletiva, da reflexão contemporânea sobre memória e justiça, sendo que isso também aconteceria sem intervenções.

Há um desejo claro de escuta, e ele é legítimo. Ouvir Heloísa Greco, acompanhar Denise em sua interação com as imagens, compreender como essas experiências reverberaram ao longo da vida dessas pessoas é, por si só, relevante. Mas o próprio filme sugere que talvez aí houvesse matéria para outro gesto, outro documentário, derivado, dedicado inteiramente a essas elaborações tardias. O material bruto, em toda a sua densidade política, histórica e emocional, parece pedir uma respiração diferente.

Ainda assim, Anistia 79 é um filme necessário. Tanto por recuperar imagens raras do exílio quanto por trazê-la a um discussão que nunca se encerrou. Ao lembrar que a anistia brasileira de 1979 foi parcial, negociada e conivente com a violência de Estado, o filme recoloca em cena uma questão que o país insiste em empurrar para debaixo do tapete. O testemunho, aqui, não aparece como encerramento, mas como insistência. Uma lembrança de que aquilo que não foi elaborado retorna. E retorna sempre.

Um grande momento
O olhar perdido de Denise

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, Critics Choice Association, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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