Crítica | Streaming

Anne+: O Filme

Não somos perfeitos

(Anne+, NED, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Valerie Bisscheroux
  • Roteiro: Maud Wiemeijer, Valerie Bisscheroux, Hanna van Vliet
  • Elenco: Hanna van Vliet, Jouman Fattal, Thorn Roos de Vries, Jade Olieberg, Eline van Gils, Jesse Mensah, Huib Cluistra, Ayla Satijn
  • Duração: 94 minutos

E quando o coming of age é daqueles atrasados, sobre a dor do processo de amadurecimento forçado pelo tempo, imprensado pela vida, quando não há mais chance de escolha, porque você perdeu os prazos e agora não vai ser mais pelo amor, mas pela dor? Anne+: O Filme chega hoje na Netflix e eu não sei necessariamente o que estava na série homônima de duas temporadas; o que eu vejo, aqui, é bem suficiente para avaliação da obra, que chega ao público com público-alvo certo, mas que não precisa tê-lo. Independente do caráter queer que é base fundamental da história de Anne, a universalidade está garantida no processo, dada essa inconclusão que tantos esbarram ao perceber que não dá mais pra esperar – é só a vida acontecendo, e te atropelando.

Dirigido por Valerie Bisscheroux, a produção holandesa engloba diversos gêneros (romance, comédia, drama, indo do mais leve ao mais introspectivo em minutos, e funcionando) para dar conta das dúvidas e inquietações de Anne, uma jovem que está mais para os 20 e muitos que poucos e tem um relacionamento estável e feliz com Sara. Ambas planejam uma mudança pro Canadá, e Sara vai na frente enquanto Anne fica vendendo tudo, se despedindo dos amigos e terminando seu livro. Aí… Anne descobre que não sabe se quer isso tudo. É um plot já utilizado com alguma frequência, porém o universo LGBTQIA+ é representado com tanta propriedade e cuidado, sua protagonista é tão exatamente crível e suas situações são tão reconhecíveis pela maioria de nós, que fica difícil não aderir ao olhar da diretora para essa realidade – a encruzilhada.

Anne+
Millstreet_Films

Além disso, cinematograficamente Anne+ tem ritmo alucinante, talvez até mais ágil do que deveria, e explora sua protagonista e o espaço onde ela vive com delicado interesse. A leitura que o filme faz dessa pressa que a protagonista vive sem se dar conta é um dado narrativo que é alcançado pela montagem, que precisa traduzir esse momento de inquietude de uma mulher adulta mas que ainda não compreendeu que o tempo não está a favor de ninguém, que não de si mesmo. Um filme que se pretende veloz também porque assim o é a vida, e Anne precisa entender que todos os dias perdemos algo ao fazer escolhas – estar em um lugar significa não estar em outro, estar com um grupo de pessoas significa não estar com outras. Parece simples e bobo, mas tenta aplicar isso na vida.

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E não é só em cadência que o filme marca ponto, mas há uma intenção de radiografar a cena pulsante queer sob cores e variantes que nem sempre estão no discurso da hora. O roteiro, escrito por Maud Wiemeijer, pela diretora e pela protagonista Hannah van Vliet traça, em entrelinhas cruciais, um pano de fundo de uma juventude gay que vive embaixo de um mesmo telhado, mas que representa inúmeras vozes com inúmeros quereres. A entrada em cena de Lou, homem trans que se interessa por Anne, abre um horizonte de ideias na produção e na própria moça, e o filme tenta complexificar sua rede de alcance ainda mais. Não é necessariamente bem sucedido porque o filme tem apenas 1 h e meia, e sua gama de interesses é bem superior a essa duração, com um campo de personagens muito rico que a série já deve ter desvendado; aqui, vemos Anne e seus amigos como um painel rico e possível, mas fica a vontade de conhecer mais.

Anne+
Millstreet_Films/Martijn van Gelder

Ainda assim é uma jornada deliciosa de acompanhar, e o elenco entrosado dá conta de absolutamente todas as nuances dessa trajetória. Mas é Hannah van Vliet quem é responsável por pintar um quadro tão acertado a respeito da confusão que a rapidez do tempo provoca em nós. Precisamos começar a decidir por volta dos 15 anos e não paramos mais, e o filme mostra, através dessa protagonista, que nossa sexualidade é um caminho de descobertas, porém os desafios não cessam mesmo quando você está no caminho certo. Porque se estamos decidindo todos os dias, isso significa que todos os dias estamos também perdendo algo. Isso é o auge da percepção da vida adulta, quando a juventude se mostra insuficiente da certeza que se tinha da invencibilidade. Se somos invencíveis, somos capazes de tudo né… pois é, dói descobrir como isso é falacioso.

Hannah, com muita propriedade, transita por essa angústia (que não tem fim nessa eterna luta contra o maravilhoso poder do livre arbítrio) e não deixa de transpirar vivacidade e intensidade, além de muita dúvida através de seus olhões expressivos. Uma jovem atriz muito capaz e atenta aos sinais à sua volta, que leva pela mão não apenas toda uma comunidade quanto toda uma geração que está sempre em uma pressa – e é preciso viver, escolher, fazer as coisas certas e de preferência não errar. Anne+ é um acerto da Netflix para mostrar que LGBTQIA+ também se ferra com as mundanices do cotidiano, e nos coloca não como seres alados ou dotados de sapiência e inteligência, mas plenos de erros e capazes de sacanear quem nos ama, além de igualmente sacaneados socialmente pela ânsia do acerto.

Um grande momento
Anne e Lou, íntimos

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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