Crítica | Streaming

BigBug

As máquinas acima de tudo

(BigBug, FRA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Ficção Científica
  • Direção: Jean-Pierre Jeunet
  • Roteiro: Jean-Pierre Jeunet, Guillaume Laurant
  • Elenco: Isabelle Nanty, Elsa Zylberstein, Claude Perron, Stéphane De Groodt, Youssef Hajdi, Claire Chust
  • Duração: 111 minutos

Homem x máquina. Desde Metropolis esse tema é frequente no cinema, talvez seja o mais absorvido pela ficção científica, e ainda hoje rende novos frutos, que podem ou não contribuir para uma discussão que, em 1930 era uma, e hoje é absolutamente outra, afinal hoje as máquinas nos dominam mesmo, nos deixamos controlar, e vai ter a hora da retomada do poder – como e quando isso será, ainda não sabemos. Mas a Netflix acabou de estrear BigBug, um exemplar cômico da mesma variante, que ainda assim está tentando construir um diálogo com nossos hábitos, com nossas velhas abstrações, e em como podemos nos antecipar ao apocalipse moderno.

O homem por trás da ideia é o mesmo Jean-Pierre Jeunet que já nos trouxe de Delicatessen a O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, passando por Micmacs e Ladrões de Sonhos, entre muitos outros. Sua assinatura é tão poderosa que não demora 10 minutos pra termos certeza de se tratar de um filme seu. Não apenas a extravagância estética e os personagens exóticos povoam suas ideias, mas também o humor sofisticado que aponta para o interno da sociedade mesmo quando o foco é um personagem específico. Nunca tendendo à crítica, mas a empatia com o tanto de desajuste existe à nossa volta e em nós mesmos, o diretor constrói sua fábula de tintas pandêmicas, porém com esperança em meio ao obscurantismo dos tempos.

BigBug
Bruno Calvo

Aqui, os robôs se tornaram parte da sociedade, e hoje a dominam, literalmente. São deles desde o poder maior do Estado, até as decisões mais frugais e cotidianas, influenciando na mídia, no corporativismo e na vida em família, afinal toda casa não só é dominada por inúmeras máquinas caseiras como vigiadas à exaustão. É deles então a “consciência” de uma rebelião que o filme acompanha o curso à distância, mas que obrigará cada habitante a perceber sua obsolescência. Nas entrelinhas, Jeunet está dizendo que a pandemia é uma obra de benefício também estatal e parte integrante de quem domina está lucrando com o isolamento social, direta ou indiretamente.

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O discurso do diretor, através do seu roteiro escrito ao lado de Guiilaume Laurant, pode ser interpretado como enviesado, já que os responsáveis pelo dominação do futuro (os robôs) também têm representantes que se afeiçoaram ao dominado (as máquinas caseiras); estaria Jeunet apresentando “humanidade” onde não vemos? Ou estaria ele relativizando castas sociais, ao compor um quadro ambíguo? Decerto que BigBug tenta dar camadas à discussão, e ao complexificar essa situação, as vozes podem de fato se embaralhar, mas não é a primeira vez que o diretor fala sobre regimes autoritários, e o enfoque aqui, em 80% do tempo, é sobre como essa reconfiguração define os modos sociais hoje.

BigBug
Bruno Calvo

Presos obrigatoriamente em uma casa, os personagens variam pouco de cômodo e essa situação exasperante acaba chegando até o público pela repetição de sua ideia. São sete pessoas contracenando em uma sala quase o tempo todo, reclamando do calor, interagindo com robôs, repetindo flertes e repetindo cacoetes, personagens todos em uma nota única; quase acredito que Jeunet queria mesmo provocar isso no espectador, e fazê-lo perceber o quão destruidor de paciência foi a pandemia. Ao mover essa situação para o extra-filme e incomodar a quem o assiste, o filme cumpre um papel e deixa a desejar em outro, é o preço a pagar.

Ainda assim, BigBug é um entretenimento com a marca de Jean-Pierre Jeunet, e aqui até mais popular do que ele costuma ser, com uma mensagem premente e atual, e cheio de contradições, se permitindo ao exagero estético como sempre, mas aqui também flertando com a periculosidade do nosso momento. Que ele flerte com a grosseria como exemplo de comédia e nos coloque, humanidade, como foco de bestialidade e chacota, é a prova de que o autor continua contundente, apesar do imediatismo que uma plataforma de streaming exige, inclusive ao espectador.

Um grande momento
A primeira reunião dos robôs caseiros

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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