Crítica | Streaming

Amor com Fetiche

Imaturo demais

(tt15553956, KOR, 2022)
Nota  
  • Gênero: Comédia, Romance
  • Direção: Park Hyeon-jin
  • Roteiro: Park Hyeon-jin
  • Elenco: Lee Joon-young, Seohyun
  • Duração: 117 minutos

Desde o sucesso avassalador de “50 Tons de Cinza” descobriu-se o quão rentável é falar de fetiches seguindo um modelo e mirando um determinado público. A dominação sexual, que rendeu a série de livros e suas adaptações cinematográficas, além de outros títulos inspirados na trama, mais ou menos relevantes, como o péssimo e ofensivo 365 Dias, é um tema que atrai a atenção. Se vem em um formato ultra-popular e com nomes muito conhecidos então… É exatamente o caso de Amor com Fetiche, estreia da Netflix que traz a temática embalada em um dos mais populares gêneros do cinema, a comédia romântica, e chega estampada com um rosto conhecido do K-pop, Lee Jun-Young ou só Jun, que começou sua carreira na boy band U-KISS e, depois de ganhar um desses realities de formação de banda, entrou para o UNB.

Ji-woo acaba de aceitar um novo emprego numa empresa que trabalha com conteúdo educacional infantil e lá comece Ji-hoo, uma funcionária exemplar que não leva desaforo para casa. O interesse entre os dois surge imediatamente, e quando ela descobre o segredo dele, o mundo de dominação e submissão começa a ser explorado. Como é novo para ambos, esse universo vem acompanhado com muitas pesquisas, explicações e apresentação de materiais. Amor com Fetiche é praticamente um “BDSM para principiantes”.

Amor com Fetiche
Jun Hae-sun/Netflix

Ao contrário do que deveria parecer, mas isso é algo que traz de sua fonte inspiradora, falta equilíbrio ao tratar do tema. Não que se precise ser sério e formal para falar sobre BDSM, longe disso, mas o filme da diretora Park Hyeon-jin confunde a inexperiência de seus protagonistas com os métodos de abordagem. Ainda que tenha alguns bons momentos e se arrisque pontualmente, principalmente na estética, o filme tem uma imaturidade incômoda, e boa grande parte do que se vê é bobo e superficial.

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Se é assim com seu tema primeiro, a coisa não muda nos outros pontos de Amor com Fetiche. A relação que se estabelece entre Ji-woo e Ji-hoo é adulta, envolve dois funcionários super sérios de uma empresa, mas parece estar acontecendo em uma sala de ensino médio. Sempre deve haver uma liberdade narrativa ao tratar da paixão, que realmente faz com que adultos se comportem como adolescentes, mas, mais uma vez, o que Hyeon-jin mostra se confunde com a forma de fazer. A infantilidade não está restrita às personagens.

Amor com Fetiche
Jun Hae-sun/Netflix

Indo além, a diretora se sai bem quando se trata de adequação formal. Ela não foge dos padrões da comédia romântica e traz o tempero que as produções sul-coreanas adicionaram ao gênero, ao abraçar a estrutura encontro-conhecimento- envolvimento-afastamento, e ao apostar em personagens de apoio tradicionais como a mãe e a colega de trabalho. Pena que o roteiro, também dela, não vai muito longe e é tão fácil que precisa inventar conflitos, nem sempre pertinentes ou fluidos, para continuar caminhando, como a ex-namorada ou a caneta-cenoura.

Porém, é preciso admitir que há um interesse na tentativa de juntar os universos pessoal e o profissional, e na intenção de contrapor o jogo de poder chefe-funcionária e domme-escravo, sendo justamente essa confusão de espaço que faz Amor com Fetiche chegar um pouco mais perto de algum lugar que se parece com a perda do controle rígido e absoluto que o aprisiona. Mas isso dura só alguns segundos. Assim, o que resta é admirar a perfumaria, que tem umas coisas bem legais, como o delírio no sex shop, e aprender os conceitos de BDSM enquanto se acompanha a história dos dois. Alguns momentos vão ser exagerados e outros equivocados, inclusive com julgamentos sobre a única coisa que o filme não deveria julgar de maneira alguma, mas tem tanta vontade de fazer humor que algumas risadas virão.

Um grande momento
No sex shop

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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