Crítica | Streaming

Antes do Amanhecer

(Before Sunrise, EUA/AUR/SUI, 1995)

  • Gênero: Romance
  • Direção: Richard Linklater
  • Roteiro: Richard Linklater, Kim Krizan
  • Elenco: Ethan Hawke, Julie Delpy
  • Duração: 101 minutos
  • Nota:

Lá se vão 25 anos do lançamento de Antes do Amanhecer, o ponto inicial do que hoje é uma das trilogias mais celebradas e inesperadas do cinema moderno. Richard Linklater quando o rodou, em 1994, provavelmente não fazia ideia de que Jesse e Celine não sairiam tão facilmente de sua vida e criassem uma relação tão profunda com quem os acessasse. Ao ver novamente os jovens naquele trem rumo à Viena, o público vai não apenas travando um reencontro com um casal que viríamos a conhecer profundamente pelos 18 anos seguinte, mas talvez chegar à conclusão que toda relação que nasceu entre o casal só foi possível pois forjada na década de 1990.

Cinco anos depois do primeiro encontro de Jesse e Celine, os aparelhos de celular já apontavam como uma realidade; 10 anos depois, o orkut já estava no auge da popularidade; após 15 anos, todo o mundo já começava a caber na palma da mão dos indivíduos. Logo, todas as impossibilidades para um novo encontro (e que, vimos bem, transformou sua visão de parte a parte, já em Antes do Pôr do Sol) seriam minimizadas caso essa história fosse escrita ou levada às telas por Linklater anos mais tarde. O excesso de possibilidades faria o casal perder justamente o mistério que os uniu, e que hoje tira muito rapidamente a magia do desconhecido e do imponderável que só era possível em 1995.

Ethan Hawke e Julie Delpy em Antes do Pôr do Sol (Before Sunrise, 1995)

O que fica de universal em Antes de Amanhecer, e ultrapassa a barreira temporal, transformando sua experiência hoje em algo superior aos avanços tecnológicos e o coloca acima disso, é o incrível naturalismo com o qual Linklater ao longo dos anos foi aperfeiçoando em sua filmografia, mas que já estava presente em Jovens, Loucos e Rebeldes. O encontro acidental entre Jesse e Celine é absolutamente desprovido de senso de direção aparente, como se todos os seus caminhos fossem definidos no momento exato que testemunhamos. E reside aí uma das características mais essenciais de sua personalidade como diretor, o quão profundamente natural (e, por consequência, naturalmente profundo) ele constrói suas intersecções.

Para que cada plano tenha as liberdades estéticas que o filme apresenta, para que cada escolha pareçam genuinamente mundanas, sabemos o tanto de concentração e planejamento que entrou em jogo. O naturalismo não é uma chave fácil de virar, apenas falando de maneira despojada cada diálogo e iluminando com aparente liberdade, para ter a aparência tão frugal quanto deve. Pelo contrário: o lugar que se procura (e eventualmente se acha) dentro do espectro naturalista só é conseguido quando imbuído em absoluto daquelas existências, e mergulhados naquelas realidades por completo. Um encontro aparentemente bobo que se transformaria numa noite cujo romantismo nasce da banalidade cotidiana não tem nada de fácil para encenar ou interiorizar com naturalidade.

Ethan Hawke e Julie Delpy em Antes do Pôr do Sol (Before Sunrise, 1995)

A história do casal vivido por Ethan Hawke e Julie Delpy, naquele ponto, tinha o propósito delicado de registrar o momento exato do surgimento do tal amor à primeira vista, aquele tão debatido e tão poucas vezes vivido. Com uma aproximação tão curiosa e sedutora quanto banal, estavam naquele momento definindo seus futuros não apenas Jesse e Celine, mas Hawke, Delpy, Linklater e a co-roteirista Kim Krizan, os quatro que estariam juntos na construção dessa história desde esse primeiro tomo, tão liberto de obrigações. Olhando em retrospecto, a despreocupação e a leveza impressas nesse encontro ficam claras desde as primeiras imagens e foram primordiais para que seu futuro fosse tão imaginado por tanta gente.

Ao fim do longa, após a promessa final na estação de trem, o filme e seus personagens rememoram aquela noite inesquecível voltando a cada um dos locais pontuais daquela madrugada decisiva. Também o espectador faz esse trajeto, pelos atores da peça da vaca, pelo poeta mendigo, pela cigana que lê mãos, pelo bar com o fliperama, pelo barman que dá uma garrafa de vinho na espera que Jesse um dia o ressarça, e é nesse momento, ao perceber que o filme vazou com suas memórias particulares para as dos espectadores e que aquela madrugada tinha sido tão especial para eles quanto para quem os acompanhou e torceu e lamentou e vibrou e se emocionou e pensou “será que eles se encontrarão 6 meses depois?”, que Antes do Amanhecer deixa claro que havia jogado uma semente ali naquele solo.

Um Grande Momento:
O “telefonema para os amigos” (mas poderiam ser outros 5 ou 6 momentos)

Poster de Antes do Amanhecer

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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