(Arábia, BRA, 2017)

Drama
Direção: João Dumans, Affonso Uchoa
Elenco: Aristides de Sousa, Murilo Caliari, Gláucia Vandeveld, Renata Cabral, Renan Rovida
Roteiro: João Dumans, Affonso Uchoa
Duração: 97 min.
Nota: 9 ★★★★★★★★★☆

Em momento de reformas trabalhistas baseadas na invisibilização daqueles que são os principais afetados por elas, um filme como Arábia, em toda sua profundidade, chega justamente para descortinar a barreira que políticas velhas liberais insistem em criar. Ao expor, de maneira simples e muito orgânica, as andanças de Cristiano por Minas Gerais, traz a realidade para que seja vista por todos, próximos e distantes, conhecedores e ignorantes daquele que é o cotidiano de tantos brasileiros.

A relação com aquela história é construída por meio de um dispositivo simples e usual, um diário manuscrito. Encontrado pelo jovem André, após Cristiano sofrer um acidente de trabalho, ali estão as lembranças de um homem comum, que encontrou muita gente, experimentou muita coisa e seguia sua vida simples da maneira que podia. O filme é o encontro de duas realidades, de um lado está aquele jovem que, até então, observava o trabalho na fábrica à distância, pela janela de casa. Do outro, o trabalhador, e toda a realidade tão presente, mas, ao mesmo tempo, tratada como pouco importante por aqueles que o observam.

Entre os muitos acertos de Arábia, está o sair do lugar comum de tantas narrativas e apostar no trânsito entre realidades, não só com a inversão do protagonismo, mas com o abandono de uma história já tantas vezes contada para focar em outra ainda pouco explorada. Não há uma exclusão de realidades, mas aquele que seria o protagonista natural – mesmo que tenha toda a complexidade e aprofundamento que um personagem bem construído precisa ter – deixa de ser o que mais importa logo após o prólogo para que uma outra história, mais urgente e também interessante, seja contada.

Os diretores João Dumans e Affonso Uchoa apostam na identificação, fazendo com que parte do público – a maioria, seguramente, em um festival como o de Brasília – se veja naquele menino que vive em uma casa comum próxima à Vila Operária em Ouro Preto e cuida do irmão enquanto os pais viajam, e outra parte, na história daquele batalhador que cruzou o estado experimentando novos empregos, fazendo novos amigos e conhecendo o amor de verdade.

Mais do que empatia, o identificar-se faz com que a descoberta da vida do outro – que também acontece no sentido inverso, quando Cristiano analisa a vida de seu leitor – assuma um caráter mais próximo e definitivo em quem assiste ao filme.

Além da identificação pessoal, há toda uma complexa e bem trabalhada questão política por trás do filme. Sem ser panfletário e apostando no poder na história contada, o longa expõe uma classe trabalhadora que já não recebia a atenção devida antes do golpe político e, agora, principalmente com as recentes mudanças da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) e possíveis alterações na previdência pública, está mais invisibilizada do que nunca.

Tecnicamente, Arábia também impressiona pela composição estética, pelas boas atuações e a belíssima trilha sonora. Até mesmo a narração em off, que poderia ser problemática, aqui se justifica bem pela leitura do diário, funciona.

Arábia é um daqueles filmes que, sob sua simplicidade, traz tanta coisa a quem o assiste que é difícil não se entregar a ele. Sem imposição, discursos inflamados e melodramas forçados, conta uma bela história e deixa uma necessária reflexão sobre sociedade, trabalho e humanidade. Uma bela escolha para encerrar a mostra competitiva do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Um Grande Momento:

Entre muitos, o olhar para o observador, quando Cristiano fala de André.

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