(Era uma Vez Brasília, BRA, 2017)

Documentário/Ficção científica
Direção: Adirley Queirós
Elenco: Wellington Abreu, Andreia Vieira, Marquim do Tropa, Franklin Ferreira
Roteiro: Adirley Queirós
Duração: 100 min.
Nota: 4 ★★★★☆☆☆☆☆☆

Um filme deve ser analisado por ele, enquanto obra completa e única, embora variante, dada a experiência de quem o assiste. Tem que funcionar sozinho, sem explicações prévias ou posteriores e, a menos que por algum propósito muito específico, não deve ser/precisar de uma peça na comparação para ter sentido. Nem sempre é possível fazer esse isolamento antes de uma análise, ora pelo filme, ora pelo nome por trás do filme, como é o caso de Era uma Vez Brasília, novo filme de Adirley Queiróz.

Depois de seus curtas-metragens e dois primeiros longas A Cidade É uma Só? e Branco Sai, Preto Fica, gostando-se ou não dos filmes, o diretor tornou-se uma nova voz na produção cinematográfica brasileira. Com um cinema intuitivo, usou da criatividade para transformar realidades caseiras em algo muito significativo.

A dissociação de Branco Sai é complexa porque, além de ser o filme que significa todo esse sentimento para com o cineasta e, portanto, está no princípio da construção da expectativa, há muito do filme anterior no que se vê em Era uma Vez Brasília.

O longa tenta contar a história de um ser de outro planeta – numa referência interessante à maior favela da América Latina, a Sol Nascente, localizada em Ceilândia – que parte rumo ao futuro com o objetivo de matar Juscelino Kubitschek antes da fundação de Brasília. Porém, um defeito na nave faz com que ele chegue aqui durante o golpe político que se efetivou com a deposição da presidente eleita Dilma Rousseff.

Assim como no filme anterior, a base da criação está no registro documental e, mais uma vez, há o uso de alegorias visuais e soluções estéticas para representar esse distanciamento imposto às classes mais pobres e marginalizadas da sociedade. Porém, diferente de todo o impacto visual e sonoro causado, não existe uma preocupação com a conexão com quem assiste ao filme.

O que se vê são repetições de elementos, mas com um prolongamento exagerado e infundado de planos, que contraria e satura o apuro visual e empenho estético, aqui claramente aprimorado. O que viria para impressionar, chega de modo enfadonho e fica no meio do caminho, não conseguindo, nem mesmo com toda aura observativa, criar a apatia e eterna espera que o filme quer abordar.

A fragilidade do roteiro pode ser constatada na criação das personagens e no desenvolvimento de suas trajetórias, além de usar inserções que nem sempre se justificam. A sensação de narrativas interrompidas em prol de um evento maior – no caso o impeachment – contraria, inclusive, a crítica que o filme tenta fazer a esta inércia que tomou conta da população depois dos eventos. Porém, as diversas leituras possíveis em um momento de suspensão social como esse continuam ali entre pausas e metáforas, entre potência sonora e tentativas frustradas de emular um outro cinema com o qual não se tem intimidade e controle.

Era uma Vez Brasília perturba externa e internamente, por ser um filme soterrado pela expectativa de uma perfeição que nunca existiu e nem existirá, e por ser o retrato de um sentimento latente de estagnação e tolerância ao intolerável, que Adirley Queirós conhece, sabe que existe e quer criticar, mas ainda não digeriu de verdade. O que fica é uma obra insuficiente e confusa, que tenta se completar com o deslumbramento estético, mas sobra conflito e falta ainda habilidade para construir algo assim.

Um Grande Momento:

Contando sobre a cadeia.

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