Crítica | Festival

Aliança

Três amigos muito loucos em uma noite de aventuras onde tudo pode acontecer

(Aliança, Brasil, 2014)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Gabriel Martins, João Toledo e Leonardo Amaral
  • Roteiro: Gabriel Martins, João Toledo e Leonardo Amaral
  • Elenco: Gabriel Martins, João Toledo, Leonardo Amaral, Tatiana Dal Magro, Robert Frank, Nísio Teixeira, Rafael Ciccarini, Cláudio Costa Val, Gabriel Zumbi, Leo Pyrata, Warley Desali
  • Duração: 80 minutos

Tem uma seleção especial dentro da Mostra Tiradentes deste ano, que é o referente ao aniversário de 25 anos da mostra, com neoclássicos apresentados ao longo desses anos todos, que incluem títulos consagrados como Branco Sai, Preto Fica e filmes que desapareceram, sem nunca ter a chance dos debates invadirem novas esferas, como Subybaya. No segundo grupo, se enquadra Aliança, que em tempo de Marte Um estreando em Sundance, nos apresenta um jovem autor Gabriel Martins cheio de frescor e alegria, ao lado de João Toledo e Leonardo Amaral, o trio atrás e à frente das câmeras em um filme surpreendente.

Isso tudo porque nossa filmografia não tá acostumada a buddy movies, e muito menos a uns que se assumem artificiais e porra loucas – as pessoas estão citando Superbad!, mas essa é a referência errada, a certa é Segurando as Pontas, independente do teor alucinógeno do primeiro estadunidense. Hoje completando 8 anos, ‘Aliança’ transborda frescor e uma pureza/ingenuidade/idiotice masculina que não foi alcançada pelo cinema indie brasileiro, ainda. A isso tudo se soma também o fato de nunca deixar de ser absolutamente engraçado, em quase tudo a que se dedica em cena, conseguindo um resultado híbrido que o eleva.

O filme é um título da Filmes de Plástico que infelizmente não rodou como os filmes da produtora mineira, esse aqui ficando restrito a 2014, o que possibilitou que um filme de ambições tão universais tenha sido nichado e esquecido como um filme hermético. Balela, Aliança nunca esconde seu poder de comunicação, ao mesmo tempo em que trata seu universo com apuro e elegância, sem perder a ternura mesmo em passagens surreais. Há em seu trio de autores a percepção de que não é necessário embalar um produto pop com papel de pão; principalmente pelo trabalho de montagem, o filme impõe suas qualidades em meio às relações humanas que se descortinam ao longo dos anos.

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Esses anos estão muito bem encapsulados em momentos muito específicos, a abertura molecote onde invadem a privacidade de uma vizinha, e o momento onde Panda tem, enfim, um vislumbre do valor daquela companhia que o espectador acompanha por 24 h, mas que valeram uma vida inteira. Com um roteiro que elenca muito bem as situações vividas por cada um do trio, dedica espaço suficiente para que os três tenham desenvolvimento e ação, e sustenta seus caminhos para longe do que nos é mostrado, dando relevo a suas curtas jornadas em cena, o filme ainda consegue elaborar timing cômico em diferentes estágios de resolução, esticando momentos e encurtando outros, em trabalho elegante.

Para isso, a montagem de Thiago Ricarte (de Sinfonia da Necrópole) realiza trabalho de impressionante apuro, em registros que se movem durante a projeção, mas sem abdicar da unidade no contexto coletivo. É um material de unidade incontestável que se apresenta com muita categoria em criar camadas de humor, indo do mais físico ao mais cerebral, e com muitas coisas entre um lugar e outro, redimensionando os códigos de comédia. Um trabalho nada fácil, que pouco é reconhecido justamente no campo da comédia, e rende sequências onde o ritmo é o responsável por fazê-las funcionar ou não, e o filme é todo muito bem escalonado.

Todas as participações em cena, que vão de André Novais Oliveira a Kelly Crifer, passando por Robert Frank, contribuem para deixar Aliança com um ambiente ainda mais familiar, e por isso mesmo ainda mais próximo do espectador e cheio de um sentimento verdadeiro entre seus personagens. Na síntese, é isso que provoca o reconhecimento do público, e também a graça, e também o carinho. É um sem número de grandes cenas, que são unidas pela interação entre aqueles três caras, que vão desde a compra da aliança até o final cheio de gosma, passando pela melhor apropriação de Aerosmith possível. Ou seja, imperdível.

Um grande momento
“Crazy”

[25ª Mostra de Cinema de Tiradentes]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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