Crítica | Cinema

Boa Sorte, Leo Grande

Uma e tantas

(Good Luck To You, Leo Grande, GBR, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Sophie Hyde
  • Roteiro: Katy Brand
  • Elenco: Daryl McCormack, Emma Thompson, Isabella Laughland
  • Duração: 97 minutos

Um tema íntimo, muito individual. Junto com ele, um combo de outros temas igualmente íntimos e pessoais. Porém, se há algo que o ser humano compartilha é a sua trivialidade. Mesmo que coisas sejam só suas e “de mais ninguém”, elas são de muitos outros e “de mais ninguém”. São particularidades que pouco ou nada têm de particular e que, mesmo que em seu conjunto tragam alguma diferença e façam o indivíduo, mostram que um são muitos. Nancy Strokes é só ela, mas é muitas também. Boa Sorte, Leo Grande é sobre isso.

A inglesa é viúva há cinco anos e por 31 viveu um casamento sem emoções, com uma vida sexual básica onde jamais experimentou o prazer, nem mesmo sozinha. Foi professora em uma escola católica, onde sua relação com a sexualidade estava explicada e, ao mesmo tempo, refletida, e teve dois filhos, com quem tem uma relação fria e confusa. Agora, está decidida a experimentar aquilo que nunca teve. É como conhece Leo Grande, o moço do título do filme, um garoto de programa com quem pretende conhecer aquilo que até então desconhecia.

Entre o teatro e o cinema, o filme de Sophie Hyde não precisa de mais do que o espaço de um quarto para acontecer. Entre aquelas quatro paredes, com uma interpretação marcante de Emma Thompson, sempre maravilhosa, e aqui bem acompanhada de Daryl McCormack, o texto de Katy Brand ganha forma. Muito mais imponentes do que a própria direção, em suas opções de planos e marcas de pausas, são os diálogos e as atuações que conduzem e despertam a curiosidade de quem acompanha o filme. O modo como os personagens vão se revelando, ela em sua vergonha e ansiedade se desnudando frente à segurança dele e ele se expondo frente à sinceridade dela, é envolvente.

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Até certo ponto o humor prevalece sobre o drama e é nessa tônica que o Boa Sorte, Leo Grande tem a maior força. Há muita ironia nas palavras de Brand e ao mesmo tempo em que se ri do modo como Nancy se refere ao próprio corpo e ao sexo, tudo o que ela diz chega de maneira incômoda e dolorosa, pois aquilo que é dito não é apenas uma realidade que nunca deixou de existir como não está restrita a esta ou aquela educação ou faixa etária. Muitas mulheres vivem vidas frustradas, não conhecem o próprio corpo e jamais experimentaram o prazer. A questão da maternidade e da incomunicabilidade com os filhos, seja por questões geracionais, pela culpa onipresente ou pela dificuldade em aceitar a quebra de expectativas, também é um outro ponto de identificação que independe de tempo, região, crença ou cultura.

Para além das associações, o que vem com esses pontos faz o longa ir se desequilibrando e abraçando um tom mais pesado que o leva a tópicos que não são necessários àquele tipo de conversa. Há uma vontade muito grande de definir o conservadorismo de Nancy ou a carência de Leo, mas essas características já estão postas e inserir debates sobre a guerra, por exemplo, tornam o filme evidente, compromendo o ritmo ágil até então. Em um longa tão baseado no texto isso é grave. Do mesmo modo, o modo como o terceiro ato começa é desproporcional e quase punitivo, expondo a mulher de uma maneira desnecessária e colocando-a em um lugar que talvez na cabeça da roteirista e da diretora torne o final mais interessante, mas apenas repete espereótipos e a velha máxima de que é preciso punição para a redenção. 

Boa Sorte, Leo Grande é um bom filme, forte em sua proposta, com um grande texto e atuações de primeira qualidade. Traz e mostra algo que poucas vezes se viu, o que merece sempre atenção e elogios, mas se perde no final, e termina como um ensinamento da professora Nancy Strokes que não conhecemos de verdade, só ouvimos falar, mas sabemos como era.

Um grande momento
A lista

[Sundance Film Festival 2022]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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