Crítica | Festival

Framing Agnes

Entre interpretações e entendimentos

(Framing Agnes, CAN, 2022)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Chase Joynt
  • Roteiro: Chase Joynt, Morgan M Page
  • Duração: 75 minutos

Em 2019, estreava em Tribeca o curta Framing Agnes que revelava a história por trás de Agnes, uma mulher trans que procurou um grupo de pesquisa liderado pelo sociólogo Harold Garfinkel na UCLA em busca da cirurgia de redesignação sexual. Alegadamente intersexual, ela deu uma série de entrevistas ao pesquisador até ser operada e, anos depois, revelou-se trans. Muito além da história daquela que lhe dá nome, o curta acessa todo o arquivo da pesquisa, com entrevistas a várias outras pessoas. Aquilo que Chase Joynt mostra, e da maneira como mostra, tinha material para chegar ainda mais longe. 

Eis que agora, mantendo a ideia original, o diretor apresenta o longa-metragem de mesmo nome no Festival de Sundance. Assim como no curta, os estudos da professora de Transgeneridade, História, Política e Cultura Julian Gill-Peterson, que pontua suas descobertas, comparações e impressões ao longo do filme, é muito importante para conduzir o documentário. E se tudo parece muito acadêmico, apegado a pesquisas e metodologias científicas, e embasado em teses e artigos, natural que se espere um filme bem tradicional, com muitos offs de trechos do estudo, entrevistas e reencenações. Bom, eles estão ali, mas Framing Agnes quer ir além disso.

Além de fazer o contrário do feito de Garfinkel, em sua pesquisa e realização, o filme dá visibilidade a todas as pessoas envolvidas no projeto. Quer falar do passado e do presente, em aproximações que são diferentes às personagens. O método é interessante: atrizes e atores dão vida aos entrevistados pelo acadêmico e, além de encenar e reviver momentos descritos ou criados no roteiro, são também personagens do filme. Buscam-se as imagens literal e decifrada do interpretado por quem está em sua pele, buscando identificações ou não, ressaltando similaridades e discrepâncias. Essas pessoas expõem as suas perpectivas dessas vivências no mundo, enquanto ao mesmo tempo falam de suas próprias experiências e trazem ao espectador uma possibilidade múltipla de olhares, em várias camadas. São vieses profundos, expostos por quem vive em uma sociedade opressora e preconceituosa, e provocam fora da tela identificação e empatia.

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Um dos pontos centrais do documentário é falar de como a mídia se relaciona com as pessoas trans. Num primeiro momento, volta à Christine Jorgensen, a primeira mulher trans estadunidense a fazer a cirurgia de redesignação e todo o frisson midiático em torno de sua volta do procedimento, realizado em Copenhague, com cobertura intensa, muitas entrevistas e espaço público e o posterior apagamento de sua história a partir da conotação homossexual que se associa à pessoa transgênero com o seu casamento com um homem. O longa associa eventos e fala da questão da estética e do “enquadramento aos padrões de gênero”, destacando a escolha de Agnes como foco do estudo da UCLA, porque dentre todos os pacientes foi ela a escolhida para ser a publicizada. O que assusta em Framing Agnes é justamente a sua conexão com a atualidade, o fato de que, mesmo que o avanço exista, que o fato de o documentário existir e de alguns relatos hoje parecerem um pouco fora do tempo, muita coisa não mudou.

— I walk like a woman, I feel like a woman, everything I do is feminine and still.
— How long has this harassment been going on?
— Forever

Ao abordar a história de Georgia, vivida por Angelica Ross, o filme alcança a questão racial, num acúmulo de preconceitos que leva a um maior deslocamento social, à falta de perspectivas, ao descaso e a uma exposição muito maior à violência — inclusive institucionalizada. Isso é reafirmado em outros pontos do longa, como quando lembra da brilhante participação de Laverne Cox ao lado de Carmen Carrera no programa de Katie Couric, onde ela fala especificamente sobre o assunto. Algo que faz pensar sobre aquilo que a mídia destaca em contradição àquilo que realmente deveria importar, sobre o modo como se olha realmente para os transgêneros. Por mais que os espaços estajam sendo cada vez mais ocupados, tendo em vista que as duas entrevistadas fossem bastante conhecidas e bem-sucedidas, a carreira delas, suas vidas, não eram tão relevantes para a entrevista.

Como esse, o filme é cheio de momentos fortes e marcantes. Alguns deles são mais ou menos explícitos, como quando fala das diferenças de personalidade e da postura diante do mundo, do modo de se relacionar com a própria sexualidade e seu próprio corpo. Algo que se destaca muito no modo como intercala os depoimentos de Agnes e Barbara. O mesmo se dá quando aborda a compreensão da homossexualidade ou as diferenças entre a transgeneridade masculina e feminina. A leitura da carta deixada por Henry, por exemplo, é muito tocante. “Nós colocamos [os indivíduos] em caixas marcadas como masculino e feminino, fechamos as tampas e não nos importamos com quem sufocamos em nome da conformidade. Desafiei a lei da padronização. Conseqüentemente, não pertenço a nenhuma das caixas, mas estive em ambas”.

Apesar do modo como flui e de ser um filme leve, Framing Agnes é muito profundo. Joynt encontra um meio diferente e pouco usual de se aprofundar e vasculhar um material precioso, trazendo novas e velhas discussões à tona, demonstrando a resistência de muitos e a persistências de muitos mais. Uma interessante análise de ícones e do modo como todos nós nos relacionamos com eles, e de como toda uma máquina trabalha para que essa relação seja constituída e mantida. Por trás de tudo, entre o que se vê e se apreende, entre o que se quer e se têm, aquilo que se é e o que se deseja que seja. Ali está o limite entre o próprio estudo e o próprio documentário. E a verdade de que muito pouco se conhece. Fica a frase de Gill-Peterson também sobre si mesma: “O fato de não os conhecermos fala muito pouco sobre eles e tudo sobre nós”.

Um grande momento
Barbara, todas as vezes

[Sundance Film Festival 2022]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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