Crítica | Cinema

O Território

O mal legitimado

(The Territory, BRA, DEN, EUA, 2022)
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Alex Pritz
  • Roteiro: Alex Pritz
  • Duração: 83 minutos

No dia 28 de outoburo de 2018 a eleição de Jair Messias Bolsonaro foi confirmada. Um dos efeitos mais graves desse resultado já vinha sendo percebido e agora era inescapável: a validação do discurso de ódio que o até então candidato propagava e, pior, encontrou eco por todo o Brasil. Seguindo o modelo de todos os candidatos de extrema direita que chegaram ao poder na onda que assolou o mundo nos últimos anos, suas palavras tinha uma forte conotação reacionária, desprezavam completamente o meio ambiente e pregavam a violência contra todas as minorias. “Pode ter certeza que se eu chegar lá não vai ter dinheiro pra ONG. Se depender de mim, todo cidadão vai ter uma arma de fogo dentro de casa. Não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou para quilombola”, dizia e era aplaudido.

À medida que sua campanha avança, o discurso ia ganhando as ruas e a violência, tornando-se mais evidente. Após a eleição, é como se todos pudessem fazer tudo aquilo que Bolsonaro dizia ser correto, mesmo que ele não estivesse ainda sentado na cadeira com a caneta na mão. Momento em que conseguiu institucionalizar muitas das barbaridades prometidas, ou “passar a boiada”, como dizia seu antigo ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles. A cada dia de sua gestão, um novo pedaço da Amazônia arde em chamas e a floresta desaparece, assim como indígenas são assassinados diariamente por madeireiros, fazendeiros, grileiros e garimpeiros. O genocídio está em andamento e o governo, que o incentivou, assiste a tudo sem fazer nada.

The Territory
Cortesia Sundance Institute

A luta pela sobrevivência da floresta e dos seus guardiões, os povos originários, é diária, não começou agora e se mostra cada vez mais urgente. Relatos e imagens terríveis de morte e devastação se repetem cotidianamente e percorrem o mundo, assombrado pela legitimação e o incentivo estatal para os atos. O documentário O Território, coprodução Brasil, Dinamarca e Estados Unidos, é mais uma denúncia do atual estado das coisas. Seu foco é o povo Uru-eu-wau-wau e sua população de pouco mais de uma centena de indígenas, cujas terras indígena vêm sofrendo desmatamento, queimadas e invasões de maneira mais acintosa desde a eleição. 

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Dirigido por Alex Pritz, o documentário segue por boa parte do tempo uma estrutura bem tradicional. O longa ambienta o espectador, demonstrando o território que lhe dá nome e apresenta a pequena aldeia sobrevivente. Observacional, deixa que os próprios uru-eu-wau-wau se apresentem, acompanhando momentos de seu dia a dia e definindo alguns personagens. Há uma diferença para quem acompanha o cinema brasileiro e a constante evolução pela qual o documentário étnico passou — o cinema de Vincent Carelli, projetos como Vídeo nas Aldeias e a presença cada vez maior da produção audiovisual indígena — e aquilo que se apresenta no filme, mas não é nada que comprometa a denúncia.

O Território
Cortesia Sundance Institute

O Território também se aproveita de material de arquivo, ainda que pouco, e, alternando o método documental, busca personagens além da aldeia que são importantes para que se entenda a dinâmica da região. Uma peça importante na dinâmica que o filme estabelece é a ativista Neidinha Bandeira. Ameaçada de morte e em constante alerta, ela mostra o que vai além do escopo do filme, em outras batalhas que luta para além da que acompanhamos, e é um retrato de como são tratados aqueles que trabalham pela defesa da floresta e dos povos originários, contrariando interesses dos latifundiários, madeireiros e garimpeiros. Ela também é importante para que se entenda um outro lado que o filme investiga, o dos invasores, “os pequenininhos”, como ela diz.

Nesta terceira linha, o filme procura entender o que está por trás do ato de invadir. Que entender quem são as pessoas e porque fazem isso. A realidade que o filme mostra é diferente da esperada, porque expõe mais um elo de uma cadeia de esquecidos e desprezados, aqui, com seus discursos comprados e crenças numa verdade ilusória, preferem não se afastar da ignorância. Percebe-se uma tentativa de imparcialidade em alguns momentos, que se sustenta com um ou outro personagem, mas que não se mantém dada a gravidade da situação.

The Territory
Cortesia Sundance Institute

O Território se desevolve traçando essas três linhas, mostrando os avanços de um lado, os esforços de outro e os atos que levam o filme a algo completamente diferente de seu começo. Mais do que mostrar a tensão, como faz com Bandeira e a especialmente angustiante sequência da ligação, por exemplo, o documentário assume esse ritmo frenético dos títulos de ação. Da seleção de imagens ao ritmo da montagem, tudo fica diferente depois do assassinato de Ari — ainda hoje não solucionado — e da entrada em cena do grupo de vigilância. Algo que chega com um tempero gringo e que certamente vai atrair a atenção, mas é estranho na forma.

Recente, O Território alcança o medo da contaminação de uma população de pouco mais de cem pessoas pela Covid-19 — e vale lembrar que Bolsonaro também é negacionista e demorou o que pôde para iniciar a companha de vacinação na população brasileira. Porque, afinal de contas, o homem branco ainda tem essas outras formas de matar as populações originárias. E as árvores seguem sendo derrubadas, a terra sendo queimada e o povo continua sendo exterminado, apesar das denúncias, da exposição e de tantos gritos de socorro e justiça. Já estamos em 2022, a hora de mudar isso é agora. Já é tarde demais, mas ainda dá tempo. 

Um grande momento
Conversa na rede

[Sundance Film Festival 2022]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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