Crítica | Cinema

Os Primeiros Soldados

Para nunca esquecer

(Os Primeros Soldados, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Rodrigo de Oliveira
  • Roteiro: Rodrigo de Oliveira
  • Elenco: Johnny Massaro, Renata Carvalho, Higor Campagnaro, Alex Bonin, Victor Camilo, Clara Choveaux
  • Duração: 107 minutos

Há de se fazer valer a voz de Rodrigo de Oliveira enquanto realizador, que vem produzindo e reverberando vozes sempre afastadas de um padrão cinematográfico vigente. Não apenas com quem mostra, mas a forma como mostra, sob que égide se forma seu pensamento cinematográfico, que lugar de pesquisa ele realiza para aportar naqueles lugares, tem um cuidado e uma procura pelo ineditismo que vasculha sua filmografia. Não há necessidade de consenso, e isso se reflete no objeto atual, Os Primeiros Soldados, filme que investiga os anos iniciais do impacto do genocídio provocado pelo HIV+ na população queer mundial, sob um olhar nada biográfico.

Utilizar períodos históricos factuais, ainda que perseguindo curvas ficcionais, podem sim se embrenhar em provocações de intensidade mediana, caso sejam colocados em prova as capacidades de seus autores de construir camadas que não os assole de historicidade, apenas. Aqui em questão, é o sensitivo que está à flor da pele desde a primeira sequência, onde a voz de Renato Russo (“Soldados”) é evocada para paralelizar as quedas iniciais provocadas pelo entitulado “vírus gay” entre a primeira geração, e cultuar a pele, as sensações, a hipersensibilidade do corpo enfermo para um grupo de pessoas que já não está mais naquela onda de horror de 40 anos atrás – nós.

Oliveira não tem a intenção de ser panfletário, e isso fica muito claro quando ele decide centrar suas informações nas micro relações estabelecidas entre os personagens, na rede de proteção emocional que nasceu comumente entre familiares, entre pessoas que se descobriram familiares, nessa família que nasce do nosso querer e não de um laço sanguíneo. Assim acaba acompanhando toda a intenção do diretor em manter seu filme na esfera do íntimo, como é uma constante da sua própria filmografia, seja em curtas ou longas, manter essa esfera menos expositiva e muito mais sensorial em relação ao que se conta, e com isso transcender e alcançar.

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Então se segue a performatividade que o diretor sempre primou, seja no campo mais direto do que é esse movimento (como uma apresentação em palco na noite de um reveillon) ou do que seria menos explícito, mas ainda assim corporal (fotografar o corpo enfermo, o mesmo corpo que tempos antes fez uma apresentação fúnebre para o espectador). O diretor de As Horas Vulgares e Eclipse Solar, ao encontrar uma brecha para uma comunicação mais direta com o espectador, não perde qualquer característica posterior e entrega um filme que nada deve ao que sua filmografia se comprometeu, evoluindo para um lugar de conexão menos hermética sem perder sua assinatura.

Com isso, ele expõe os dilemas de seus personagens e ainda referencia o cinema ao utilizar um personagem como construtor de imagens daquele universo, alguém que traduz suas visões e seu material imagético como uma força propulsora não apenas de vida, como de material cinematográfico da época, o material possível dentro de um contexto marginal que onde a homossexualidade será arremessada em qualquer tempo, em qualquer classe pretérita, em qualquer disposição étnica. Terminamos juntos, os negros, os bem nascidos, as travestis, os que estudaram fora e os que nunca estudaram, os que sempre souberam sua condição e os que foram expulsos por descobrir. Essa é uma das formas de fazer magia no cinema, mostrar que as imagens são capazes de compor quadros inerentes a todos.

A cereja de um bolo cheio de camadas artísticas e possibilidades de leituras (“eu quero continuar te beijando” é uma cena de uma doçura sem fim, e ao mesmo tempo facilmente identificável em vários contextos) são a parceria entre Johnny Massaro e Renata Carvalho, duas personagens que se conhecem mas demoram a estar juntos em cena. Quando o milagre finalmente acontece, o que eles já realizavam com intensidade separados, explode em conjunto. Suzano e Rose são personagens imensos, que encontraram intérpretes à altura, e a forma como seu diretor os conecta a cada nova fricção, seja a linda encostada de cabeça entre eles, seja sua descomposta aula de culinária juntos, é a conexão que nos faz perceber tudo ao seu redor.

Os Primeiros Soldados, também por essa união entre o que lhes é caro, o calor humano e a qualidade do que é construído entre humanos marginalizados, carrega uma verdade intransponível: a AIDS começou nos anos 70, e não acabou. NÃO ACABOU. E precisa ser desestigmatizada tanto quanto precisa ser lembrada de sua existência, para que o amanhã nos consiga ser mais leve e apaixonado sem perder a responsabilidade com os primeiros a cair.

Um grande momento
O monólogo de Rose

[25ª Mostra de Cinema de Tiradentes]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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