Crítica | Festival

Resurrection

Voltar à vida

(Resurrection, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Andrew Semans
  • Roteiro: Andrew Semans
  • Elenco: Rebecca Hall, Tim Roth, Grace Kaufman, Michael Esper, Angela Wong Carbone
  • Duração: 103 minutos

Não tem como explicar o que é ser mãe. Alguma coisa acontece com a gente, se transforma em algum lugar, e a vida deixa de ser aquilo que foi um dia. O amor é gigante, inexplicável. Mas ser mãe, para além de toda transformação física e afetiva, é algo que vem carregado de expectativas que não são exatamente suas. Há uma imagem pré-estabelecida do que é ser mãe, toda mãe tem que ser boa, toda mãe tem que ser pura. Virgem Maria, a imaculada, é o símbolo supremo feminino do maior grupo religioso do mundo. A que provém, abdica, se sacrifica, mãe antes de ser mulher, e se é mulher tem que ser mãe, como padrão social absoluto. E há uma culpa perpétua que ninguém sabe de onde vem e o medo de não estar lá, de estar lá de mais; de falhar; de não ver, não ouvir, não falar; de perder; de errar.

Os traumas de uma mãe vêm de todos os lugares, têm as origens mais inesperadas, e se escondem em tantos outros. Há aqueles mais graves, que não se escondem ou se escondem tão bem que não podem ameaçar aparecer. Em Resurrection, Rebecca Hall, em estado de graça, entregando uma das melhores atuações da sua vida até aqui, é Margaret. Forte, feminista, inteligente, imponente, decidida, desconstruída, ela é mãe de Abbie, com quem tem uma relação normal, e faz aquilo que quer, na hora que bem entende, do jeito que acha melhor. Tudo muito bem, obrigada, até que o gatilho “culpa materna” dispara. “Eu não ouvi”.

O diretor e roteirista Andrew Semans, do bom Nancy, Please, leva o sentimento ao extremo do delírio. Por trás da sua história bizarra, uma mente adoecida pelo retorno do passado e o medo de falhar novamente. O pouco que está em cena amplifica os sentimentos, a ruína da fortaleza é construída pouco a pouco em imagem e tempo, e o sentido que nunca existiu para quem não teve relação direta com o trauma afasta da trama de Resurrection, mas conecta com a personagem num misto de pena e julgamento.

Apoie o Cenas

Aquilo que se tem fora da tela está refletido dentro dela, em personagens satélites, alguns mais relevantes do que outros, como Abbie (Grace Kaufman), que sofre as consequências diretas, e Peter (Michael Esper), que as acompanha de perto mas é incapaz de interferir por barreiras já muito bem delimitadas anteriormente. Há também Gwyn, a jovem estagiária e personagem-chave do roteiro (e talvez sua facilidade). Por meio dela, conhece-se Margaret em toda a sua força e potência e se acompanha sua deterioração após o passado revelado.

Resurection estabelece o horror e o suspense ainda em passagens sombrias e em elementos bizarros. Além de chocar gráfica e esteticamente, Tim Roth, como David, também em uma grande atuação, surge como o fantasma bizarro grotesco. Em diálogos surreais, sem coerência, o deboche dele e a angústia dela vão transformando o filme em uma experiência quase dolorosa, mas tão instigante que é impossível afastar-se dela. E tanto estranhamento provoca tentativas de explicações que vão além da mais óbvia, já que ela não faz qualquer sentido.

Da realidade do trauma, que perpassa a maternidade e alcança a experiência opressora machista, à percepção da quebra de um ciclo e do natural afastamento e ruptura, pela qual todas as mães passam em algum momento, há uma gamas de caminhos psicológicos e afetivos a serem seguidos através daquele delírio de ameaça e medo. A morte do passado pode ter ali milhares de significados, mas qualquer um deles levam a um mesmo destino, a volta a si mesma. Dentre todas as leituras possíveis em Resurrection, há essa de uma mãe que se entrega, se dedica, se culpa, se pune, e que tem muita dificuldade de olhar para si mesma, de voltar a si. Seja ela quem for, tenha ela a força que for

Um grande momento
David no escritório

[Sundance Film Festival 2022]

Curte as Coberturas do Cenas? Apoie o site!

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
Botão Voltar ao topo