Crítica | Festival

Bem-Vindos ao Novo

Sobre falências

(Bem-Vindos de Novo, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Marcos Yoshi
  • Roteiro: Marcos Yoshi
  • Duração: 105 minutos

Que o capitalismo deu muito errado, é uma afirmação que não precisamos assistir a filme algum para chegar a uma conclusão meio óbvia. Quando nos aproximamos de histórias reais a respeito de fenômenos de exclusão diante da falta do capital em um universo familiar, isso não só fica estampado como triste de uma maneira irreparável. Bem-Vindos de Novo, estreia do último dia da competição da Mostra Tiradentes, trata com a devida melancolia uma história de desintegração familiar graças a tentativa de conseguir um futuro mínimo para o descendentes com a delicadeza peculiar dos povo nipônico, que aqui vai entregando, passo a passo, doses de uma ruína inevitável.

Marcos Yoshi, diretor de Aos Cuidados Dela, estreia na direção de longas com mais um retrato contundente sobre sua família e os seus descaminhos até a falência, dos antepassados até hoje, enquanto o diretor segue esse caminho de vergonhosa desonra. Não é assim para Marcos, mas é assim para seu pai, que sofre profundamente por não ter conseguido manter o padrão familiar e se ver constantemente obrigado a recomeçar, sob diferentes aspectos. Seu filme atravessa a relação desse casal com filhos para contar uma saga de sobrevivência e persistência diante de uma meta que parece estabelecida pelos ancestrais e não pelos homens de hoje.

A família, enquanto instituição, existe aqui em Bem-Vindos de Novo em uma espécie de limbo. Eles tentam se manter à distância, e quando unidos, tentam se conhecer e se compreender, se interseccionar, sem conseguir criar espaços de compreensão que a fundamentem. Isso tudo ocorre por uma tradição milenar da imigração que acima de tudo o cinema nos vendeu como um projeto de sucesso, e o Japão (e tantas outras culturas) como um dos seus pilares organizou esse lugar do sucesso. Pois bem, a imigração não ter dado certo é um dos escopos que correm pelo filme e que espantam tanto quanto surpreendem, porque tratam de um resultado oposto ao que uma ideia de sucesso nos ocupou culturalmente.

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Em um mundo em constante sistema de falência, da moral à física, acordarmos para uma realidade onde inclusive sistemas tradicionalmente vendidos como vencedores são percebidos como falhos e resultantes em impotência emocional, é como uma nova percepção de erro social que chega até nós em pleno velório que vivemos desde 2015. A família Yoshi, enquanto provedora natural, se percebe inválida na tentativa que também ela percebia óbvia; ao não conseguir o que foi ensinado de maneira comum e óbvia, sua reação é a de implosão, até que percebamos os escombros à nossa volta.

O que Marcos filma é o aparecimento de uma fortaleza rachada, na figura de seu pai Roberto, observado com as tintas que nunca se imaginara. Esse é o tipo de projeção que se faz de um pai como esse, um homem que viaja para o outro lado do mundo para conseguir o que lhe parece razoável, mesmo tendo em mente que seus antepassados já falharam em tarefa parecida. Roberto precisa mudar esse rumo, e significativamente é alertado a todo momento quanto a sua falibilidade, e o quão humano é. Observar a descoberta de um homem passível de erro diante de sua família, o que lhe configura provavelmente como uma desonra, é um dado de tragédia em Bem-Vindos de Novo.

Diante do quadro, sobra nas entrelinhas a sensação de estarmos assistindo a um processo de desintegração promovido não por seus próprios membros, mas pelas circunstâncias sociais, que os impele à queda. Marcos Yoshi, em seu triste registro sobre a melancolia inerente à sua família pela necessidade em conseguir capital e sistematicamente ser impedida de realizar afeto por não conseguir produzir capital, em uma espiral bizarra e melancólica em como o dinheiro não conseguiu promover amor e empatia, acaba por produzir material suficiente para outorgar desconforto em relação ao movimento eterno da imigração, com suas eternas idas e vindas que não se traduzem de maneira efetiva, e afetiva principalmente.

Um grande momento
Roberto desmorona

[25ª Mostra de Cinema de Tiradentes]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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