Crítica | Streaming

Arlo, o Menino Jacaré

Infâmia detectada

(Arlo the Alligator Boy, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Animação
  • Direção: Ryan Crego
  • Roteiro: Ryan Crego, Clay Senechal
  • Duração: 90 minutos

O circuito cinematográfico da animação fica cada vez mais diverso, não apenas no que diz respeito às suas técnicas, mas principalmente quanto à abordagem de seus temas, à criação de seus universos e aos personagens criados para tratar dos temas expostos. A estreia de hoje da Netflix não pode ser mais inusitada, ainda que sua trama traga de volta questões referentes à sociabilização e integração de diferenças com empatia e sem preconceitos. Arlo, o Menino Jacaré é um trabalho do estreante Ryan Crego, que trabalhou como animador em filmes como Kung Fu Panda 2 e Gato de Botas, e agora estreia revelando um humor fora do comum.

Como o título já entrega, se trata da história de um adolescente crocodilo criado em um pântano que descobre através de sua mãe adotiva (que é humana) ter sido achado em uma cesta vinda de Nova York, lugar pra onde ele parte imediatamente tentando conhecer sua família biológica. No caminho, ele vai conhecer uma menina agigantada, um homem minúsculo, uma bola de pelos falante, uma felina motorista e um peixe fugitivo de um aquário; todas essas criaturas obviamente acabam encontrando entre si a supressão de uma carência que sempre os invadiu, o que leva o filme para o tradicional lema “o melhor da viagem não é o destino, mas o caminho”.

Arlo, o Menino Jacaré

Como se já não fosse bizarra o suficiente tanto as figuras que habitam o longa como as situações onde eles se metem, que incluem luta livre, uma caçada desenfreada perpetrada por uma dupla de caipiras e seu “animalzinho” e a tradicional festa do MET Gala, os personagens ainda… cantam. Sim, Arlo, o Menino Jacaré é uma animação musical, e essa característica não é apenas um acréscimo surreal ao todo apresentado; compostas por Crego, as canções do filme não apenas embalam as cenas e compõem o painel da produção, como são uma moldura emocional ao roteiro de muito bom gosto, pelo menos duas delas canções pop de qualidade e impossíveis de não cantarolar, ou seja, típicas “chicletes”.

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Com todos esses elementos postos à mesa, o roteiro de Crego e Clay Senechal se mostra um pouco tímido na condução dos acontecimentos. Explica-se: provavelmente por não querer um afastamento prévio ao universo apresentado que está pronto pra virar uma série, o filme pisa no freio em situações escalafobéticas assim que seu núcleo é apresentado. A trajetória vista em cena é bem mais “lugar-comum” do que poderíamos prever. Interessado em ganhar espectadores e não o contrário, o filme apresenta uma narrativa bem infanto juvenil sobre a necessidade de encontrar uma família em lugares inesperados, e aceitarmos as nossas e as diferenças alheias.

Arlo, o Menino Jacaré

Com isso, o senso de humor do filme, que esbarra no corrosivo aqui e ali, se contenta com essa aparição tímida de suas habilidades infames, que provocam gargalhadas quando eventualmente dão as caras; são gags visuais que não estão no primeiro plano sempre, e precisam de sagacidade para serem conferidas, em especial no momento quando a trupe chega ao MET Gala. É como se o filme reconhecesse a própria vocação pra transgressão, mostrasse suas possibilidades nesse campo, fossem bem sucedido nelas mas escolhesse um lugar mais seguro de compreensão, e mirasse um público mais amplo e menos adulto.

A mensagem positiva que segue Arlo, o Menino Jacaré acaba minando o humor mais impróprio do filme, no entanto, eleva o caráter musical do filme, através de suas canções inspiracionais e de melodia sofisticada, não devendo nada a muitas indicadas ao Oscar já vistas nos últimos anos. O coração de pequeno jacarezinho acaba falando mais alto que seu bom humor, e com isso as famílias podem conferir suas aventuras à vontade.

Um grande momento
“Beyond These Walls” / “Follow me Home”

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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