Crítica | Streaming

The Soul

Mistura tudo que dá certo

(緝魂, CHN, TWN, 2021)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Cheng Wei-Hao
  • Roteiro: Cheng Wei-Hao
  • Elenco: Chen Chang, Janine Chang, Anke Sun, Christopher Lee, Baijia Zhang, Lin Hui-Min, Samuel Ku, Lu Hsueh-Feng
  • Duração: 130 minutos

A cinematografia chinesa é cheia de mexidões. São aqueles filmes que, seja em tramas simples ou intrincadas, em modelos comerciais ou mais alternativos, misturam vários gêneros para chegar onde querem. O bom disso é que leques de temas e pontuações de momentos de fazem possíveis. Apesar da duração excessiva, The Soul, um dos muitos títulos orientais comprados pela Netflix nessa temporada, é um ótimo exemplo desse passeio entre possibilidades e estilos.

Claramente comercial, com inspirações em muito do que foi popularizado pelas mais duradouras séries investigativas, The Soul começa como um suspense policial que intriga quem apertou o play. O método já foi usado antes, mas o diretor Cheng Wei-Hao mostra que tem alguma coisa diferente para apresentar quando resolve percorrer um caminho lento e vagaroso pelo enorme casa. A contradição de tempo, o deslocamento e a própria exploração do espaço fazem com que a chegada na cena seja mais interessante. E ali, no que seria um assassinato, marcas ritualisticas. Terror?

The Soul 2021

The Soul vai se construindo assim, entre os gêneros. Ora incorpora um, ora descarta outro, mistura duas, três ou quantas coisas forem necessárias e não se intimida com reviravoltas. São quatro os seus personagens principais: o promotor Liang Wen-Hao, homem correto, prestes a ser pai que se descobre com câncer terminal; a policial Ah-Bao, esposa de Liang, melhor agente da divisão; Li Yan, viúva, herdeira e principal suspeita do assassinato; e doutor Wan, sócio do falecido, segundo herdeiro da empresa e melhor amigo da família. O longa passa por todos, cada um tem o seu momento e destaque, e nem sempre isso é positivo, uma vez que é assim que o filme acaba se perdendo na duração. 

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Porém, é também como ele estabelece melhor o encontro dos gêneros: o suspense policial é guiado pelo casal de policiais, enquanto o melodrama vem com toda a sua força com os relatos do melhor amigo. Já a jovem viúva está envolta pelo cinema de gênero, com uma trama que vai do horror à ficção científica. A tudo, vai colocando elementos característicos, como o detalhe dos investigadores antes de entrar novamente na cena do crime e mesmo a relação diversa com o místico. Além de sair do mais banal policial que depois de um óbvio tribunal chega à identidade de gênero.

The Soul 2021

A mistura de The Soul também é marcada pelas escolhas estéticas de Wen-Hao, por cores e texturas que se complementam e conflitam. Se fazem sentido em sua sobriedade, por vezes incomodam por seus exageros kitsch, mas é justamente isso que chama a atenção na produção chino-taiwanesa, a facilidade com que transita entre tanta informação sem se preocupar com o incômodo que isso está causando. A história se assume escalafobética e só vai, com todas as suas reviravoltas até que a última se revela.

Obviamente, não é um filme que tem uma pretensão de ficar marcado na vida do espectador, mas que faz bastante. Peca pelo excesso, pelos estereótipos que não consegue abandonar de gêneros e gêneros (isso mesmo, não é erro de digitação) e por um apego na montagem, quando se repete, mas é divertido na construção de seu caminho variado atravessado por vidas de estilos e características muito marcadas. Ao juntar tanta coisa conhecida para montar uma trama também conhecida, mas de maneira completamente diferente, Wen-Hao, de certa forma, inova no tempero do mexidão e dá vontade de repetir o prato.

Um grande momento
Invadido pelas cores e a luz do melodrama

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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