Crítica | Streaming

As Loucuras de Rose

(Wild Rose, GBR, 2018)
Comédia
Direção: Tom Harper
Elenco: Jessie Buckley, Maureen Carr, James Harkness, Julie Walters, Adam Mitchell, Daisy Littlefield, Louise Mccarthy, Allison Simpson, Janey Godley
Roteiro: Nicole Taylor
Duração: 101 min.
Nota: 7 ★★★★★★★☆☆☆

“Had to find my own way, make my own mistakes
But you know that I had to go
Ain’t no yellow brick road running through Glasgow”

Cantando a história do filme e de Rose-Lynn, papel que defende com tanta paixão, Jessie Buckley enfeitiça a plateia do BAFTA. Ela, indicada por dar vida à jovem ex-presidiária sonhadora, ao entoar a canção da também atriz Mary Steenburgen (inexplicavelmente não indicada ao Oscar da categoria, mas vencedora do Critics Choice), arrancou lágrimas de Renée Zellweger, Olivia Colman, Saoirse Ronan, deixou Bradley Cooper surpreso e fez Adam Driver acompanhar o ritmo batendo os pés. E é assim que se fica ao assistir sua performance no filme de Tom Harper, lançado em 2018 mas que só estreou no ano passado no Brasil e agora está disponível no Prime Video.

Jessie é uma artista revelada por programas de talentos, assim como Kelly Clarkson, por exemplo. Mas é versátil como Lady Gaga, responsável por uma performance comovente nesse mesmo BAFTA, em 2019, com “Shallow”, da trilha de Nasce uma Estrela. Menos badalado do que o filme que Gaga fez com Bradley Cooper, Wild Rose – horrivelmente traduzido aqui para As Loucuras de Rose – narra uma história semelhante mas que gera bem mais empatia e um efeito catártico mais real com o seu final de consagração, de recomeço e de aceitação.

Rose fracassa em todas as esferas da vida – abandona os dois filhos pequenos para perseguir o sonho mesmo que às custas do sacrifício da mãe Marion (Julie Walters, divina); engana a patroa que, do dia para a noite, resolve ser sua mecenas; tem tão pouca fé em si mesma que desperdiça a chance de alcançar o estrelato. Repete para si, quando está faxinando um casarão ou a bodega onde volta e meia sobe ao palco para cantar, que a sua hora vai chegar.

Mas ela não chega, pois a vida de uma pobretona que vive na Escócia e quer ser estrela da música country não é simples. E nem se resolve magicamente ao dar de cara com um Jackson Maine desiludido. Não, Rose tem que lidar com os próprios espinhos em busca de se curar e entender seu lugar no mundo. E sim, ela chega até Nashville, a terra do country, mas não como se espera. A mudança chega antes na mente e no coração da cantora, a ‘runaway american dreamer‘ agora está disposta a esperar a hora e o lugar certo, não sem antes recolocar a vida nos eixos e finalmente compreender, vivenciar o que é ser mãe.

Fundamental, a edição cumpre um papel importante na construção narrativa das idas e vindas de Rose, criando ciclos na vida dela que vão se fechando. Voltando à canção tema dessa saga, a letra de Glasgow serve como epílogo, pois ela narra como foi preciso Rose errar, magoar aqueles que ama, para se encontrar e descobrir que tem tudo que é preciso – afinal não existe uma estrada de tijolos amarelos na Escócia.

Mas não há nada como o tempo para trazer sabedoria e propósito para Rose. As músicas de Patsy Cline que o digam. E ela consegue vislumbrar a cidade das esmeraldas quando sobe ao palco, bate seus pés três vezes e percebe que o seu lugar na ribalta sempre esteve ali.

Um Grande Momento:
Rose gata borralheira cantando no meio do expediente.

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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