Crítica | FestivalMostra de Tiradentes

Um Dia com Jerusa

(Um Dia com Jerusa, BRA, 2019)
Gênero
Direção: Viviane Ferreira
Elenco: Lea Garcia, Debora Marçal, Antonio Pitanga
Roteiro: Viviane Ferreira
Duração: 80 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

A exibição de Um Dia com Jerusa na 23ª Mostra de Tiradentes é um marco histórico no cinema brasileiro. Mais do que um filme de mulheres, o longa-metragem tem todas as suas equipes comandadas por mulheres negras. Em um cinema historicamente dominado por homens brancos isso é, sem nenhuma dúvida, um feito a ser comemorado.

Baseado no curta O Dia de Jerusa, também dirigido por Viviane Ferreira, o filme é protagonizado por Léa Garcia e se desenvolve envolto em muito afeto. O roteiro, entrecortado de passagens temporais diversas, aposta no encontro para trazer uma mensagem potente de afirmação e pertencimento.

Ancorado no mesmo texto base, encontra nas situações antes ligeiras ou citadas, um lugar de desenvolvimento criativo, ou para a realização visual da mensagem que busca deixar ou para a o aprofundamento das ideias, mergulhando por vezes em novas situações e experiências, abrindo outras possibilidades visuais.

Na realização, destaca-se a coragem da diretora na escolha de algumas tomadas e a consciência com que opta por alguns movimentos de câmera. Embora nem tudo se encaixe com perfeição e haja uma falha de ritmo, principalmente notada na duração das cenas, há um interesse pelo conjunto que faz com que o filme flua, principalmente depois que se entra na casa de Jerusa.

É quando se mergulha na história daquela mulher e quando a busca de Sílvia por sua ancestralidade ganha força. Tudo é concatenado de forma inteligente, apesar das repetições e de um certo desacerto no tom das duas atuações, mas nada que comprometa a experiência a ponto de fazer com que não se mergulhe na história que une aquelas duas mulheres.

O longa consegue acessar várias questões, como o machismo, o extermínio e a falta de oportunidade de jovens negros, o apagamento histórico, sem que isso soe como uma quebra, algo fora do lugar. Há sempre uma busca pela plausibilidade e a contextualização, ou seja, aquilo tudo poderia acontecer naquela história, daquele jeito.

Além disso, há um misto interessante no filme de afeto, força e resistência. Tudo é defendido com muita determinação, mas sem nunca deixar o afeto de lado, consciente de que sem esse elemento talvez não seja possível chegar a lugar algum. Pois é no encontro – e no reconhecimento que vem desse encontro – que a força realmente se estabelece.

Um Dia com Jerusa tem, sim, alguma imaturidade e coisas que poderiam ser aprimoradas, mas é um filme que se basta em si mesmo. O modo como consegue envolver-se em seu próprio afeto e a maneira como tenta trazer o contexto social e a questão identitária de maneira orgânica merecem elogios. Sem falar que é o começo de uma nova história no cinema brasileiro, uma história que terá outras muitas histórias para contar.

Um Grande Momento:
Na neblina.

[23ª Mostra de Tiradentes]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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