Crítica | Festival

as of yet

Sem máscara na pandemia

(as of yet, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Taylor Garron, Chanel James
  • Roteiro: Taylor Garron
  • Elenco: Taylor Garron, Amir Khan, Eva Victor, Quinta Brunson, Ayo Edebiri
  • Duração: 81 minutos

Se teve uma coisa que a pandemia Covid-19 veio mostrar para todo mundo é o quanto, por mais que todos estejamos distantes, estamos próximos uns dos outros. Não estou falando daquele amigo que mora longe, do parente de quem tivemos que ficar afastados, estou falando do ser humano de maneira geral, enquanto ser social mesmo. O enclausuramento forçado trouxe à tona vários sentimentos comuns a todas as pessoas e talvez o mais universal deles seja a decepção. Há uma cena muito boa em as of yet que demonstra isso: Naomi conversa sobre os protestos #BlackLivesMatter por videochamada com sua roommate Anne e, a cada nova opinião que escuta, é possível perceber a figura da amiga desmoronar dentro dela.

Mais do que a louça na pia, a explosão de lives e a esquisita rotina de aulas dos filhos e reuniões de trabalho dentro de casa, duas coisas muito mais complexas e indesejadas chegaram sem pedir licença com esses tempos, o estar sozinho consigo mesmo e o enxergar o outro. O longa de Taylor Garron e Chanel James quase ignora os primeiros tópicos para se dedicar exclusivamente aos dois últimos. Trancado em casa com Naomi, com direito a uma única saída, restringindo o contato a chamadas de vídeo e conversas pela janela, acompanha os primeiros meses da pandemia da jovem adulta. A persona da protagonista vai se expondo nas interações com suas amigas e seus familiares e no contato com o próprio público, em forma de diário. E o conflito principal vem com a relação com Anne, a roomie e melhor amiga que foi passar a quarentena na casa dos pais. 

O que Naomi vivencia em as of yet, centenas de milhares vivenciaram fora dele. Seja pela falta seriedade com que encararam a doença, desrespeito às normas sanitárias, negacionismo, questões sociais ou políticas, o estar trancado em casa, fez com que o olhar para o outro ganhasse uma outra atenção e relevância. “Quando acabar a pandemia, eu vou ter só dois amigos” não é uma frase incomum de se ouvir nos dias de hoje. Ao estar sozinha, com tanto tempo para se ver, tomar consciência de si e dos seus próprios defeitos, a pessoa tira a própria máscara. Ela se vê melhor e se mostra mais também. Ao mesmo tempo, torna-se ainda mais crítica ao mundo. 

“É com essas pessoas que eu realmente quero estar?” E como proceder quando a imagem do outro se quebra em mil pedacinhos e esse outro mora com você (ainda que temporariamente não esteja ali)? Ou quando existe uma relação que traz tantas outras complicações? E mesmo que não haja toda a elaboração, o que fazer com tudo aquilo que existiu até ali, com o que há de cristalizado daquela história. Isso se recupera? as if yet, ou “a partir disso”, numa tradução direta, mostra também a dificuldade de romper.

Em um mar de filmes de pandemia, com retratos variados de pessoas trancadas dentro de casa fazendo videochamadas e divagando sobre a vida, o longa se diferencia dos outros pelo roteiro de Garron, que já tinha sido dirigida por James em As Coisas Que Fazemos Quando Estamos Sozinhas, ao misturar o banal de um pseudo-romance “carentênico” e um drama de amizade a pautas complexas como estas, sem deixar de levantar questões sociais e identitárias. Embora nem sempre seja precisa no tom e nem tudo pareça estar no lugar, ela consegue trazer uma naturalidade ao diálogo e faz bem o trabalho de envolver, chamando a atenção do público para certas discussões e apelando para a identificação quando sabe que pode fazer. 

Numa obra genuinamente pandêmica, ela também é a protagonista do longa e encontra um conforto na atuação solitária e na troca à distância que a tecnologia permitiu e a situação atual naturalizou. as if yet é produzido pela Duplass Brothers Productions — o terceiro da era #FicaEmCasa deles deste ano a circular pelos festivais ao lado de Language Lessons e 7 Days — e, diferente de uma usual concentração de outros títulos, tem o acre espalhado pela trama. Bem-humorado e leve, passa o seu recado de que, junto com todas as tristes mazelas, essa doença veio para quebrar muita coisa e colocar outras tantas no lugar. Aqui, no Japão, na Nigéria ou nos EUA, em algum momento deste último ano, alguém olhou para a tela no meio de uma conversa sem conseguir reconhecer aquela pessoa com quem estava falando e que um dia conhecera tão bem.

Um grande momento
Protestos pacíficos

[2021 Tribeca Film Festival]

Curte as coberturas do Cenas? Apoie o site!

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
Botão Voltar ao topo