Crítica | Streaming

Ascensão do Cisne Negro

Alô às armas

(SAS: Red Notice, GBR, HUN, NED, SWI, 2021)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Magnus Martens
  • Roteiro: Laurence Malkin
  • Elenco: Sam Heughan, Ruby Rose, Andy Serkis, Hannah John-Kamen, Tom Hopper, Noel Clarke, Owain Yeoman, Jing Lusi, Ray Panthaki, Richard McCabe, Douglas Reith, Anne Reid, Tom Wilkinson
  • Duração: 124 minutos

Na reta final de Ascensão do Cisne Negro, uma das três super estreias da Netflix para hoje, revela-se uma moral da história absolutamente questionável, cuja polêmica os criadores parecem convencidos a apoiar de maneira plena. O filme é claramente a favor – a uma mesma cena-chave é reafirmada nos minutinhos derradeiros – da retaliação das forças armadas, resultem elas em baixas ou não, estejam em situações de guerra ou não. Tal questão é apoiada pela mocinha pacifista que questionava as ações do namorado até se ver envolvida na espinha dorsal da violência, e enfim abrir mão de suas convicções em nome da vida, em prol da execução sumária.

Magnus Martens, norueguês envolvido em episódios de inúmeras séries (Walking Dead, Agentes da S.H.I.E.L.D., Banshee, entre outras), volta a direção cinematográfica depois de 10 anos com essa produção que, além de pró-terrorismo e pró-baixas, mapeia uma visão confusa a respeito das organizações, sejam elas criminosas oficiais ou não. O filme ataca a todos, mas também dá direito a fala igualmente a todos, ou seja, sua situação parece uma posição confortável em cima do muro, um lugar nada agradável para quem tem a ousadia a seu favor. O filme usa essa ousadia adquirida de maneira irresponsável, abrigando ideias que sugerem a anarquia como inflexão.

O roteiro de Laurence Malkin é baseado na novela de Andy McNab que sugere uma série de aventuras com esse esquadrão anti-terrorista, cujo protagonista é um agente de campo em processo de crescimento. Uma espécie moderna de cruzamento entre Rambo e Chuck Norris com pitadas de MacGyver, o tal Tom Buckingham (olha o sobrenome…) não tem problema algum em matar em serviço, e é questionado pela futura esposa a respeito de sua consciência; ao longo da produção, ambos serão colocados à prova em seus discursos, e o filme promove constantes ameaças na tentativa de uma problematização de seus temas, que sempre acabam abandonados no projeto de resolução de ideias, tanto efetivamente quanto em sua reflexão.

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Ascensão do Cisne Negro
© Sky Cinema

Na construção da ação pela proposta imagética, o filme não fornece nada de novo que não seja conseguido através de CGI, o que é decepcionante de verdade tendo em vista um certo padrão de qualidade estética que a Netflix costuma imprimir em sua produção de larga escala de gênero. São fundos verdes muito perceptíveis, construções computadorizadas feias e irreais, o que soa injustificável a um filme que ambiciona uma franquia. Poucos são os momentos em que a tensão parece crível, até porque suas coreografias de cena são todas muito atrapalhadas, e o filme deixa de interessar justamente no que deveria ser seu principal trunfo.

O filme conta com dois veteranos excelentes no seu elenco, Tom Wilkinson e Andy Serkis, que infelizmente tem participação menor do que o resto do elenco, geralmente inconsistente e até deficiente, caso da canastrice de Ruby Rose, que nem parece se divertir em cena – o que vemos é uma moça repetindo cacoetes vilanescos batidos que nunca chegam a funcionar. O rapaz protagonista, Sam Heughan, explodiu encabeçando o elenco de Outlander, mas aqui não parece à vontade, sempre soando deslocado, parecendo se divertir demais em meio a situações perigosas. Isso aliado aos efeitos especiais deficientes e parece que estamos diante quase de uma comédia, embora outras pessoas levem a sério, ou seja, há um desequilíbrio claro.

Ainda que seja mais um produto de consumo rápido da Netflix, raras foram as vezes em que algo foi apresentado como esse Ascensão do Cisne Negro, com ideias perigosas em sua narrativa, com um roteiro cheio de penduricalhos que não fazem sentido e facilitadoras de ação sem qualquer respaldo e pobres dramaticamente (porque o herói resolve viajar de trem já tendo comprado a passagem de avião?), e pra completar ainda esteticamente é uma produção cheia de deslizes, a ponto de em alguns momentos o palco principal de seus atos, uma locomotiva, parecer frágil aos olhos do espectador. No fim da sessão, o filme ainda parece aqueles casos onde, mesmo desligado, o cérebro encontra motivos para se arrepender do play.

Um grande momento
Sangue quente

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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