Crítica | Outras metragens

Assistindo à Dor dos Outros

(Watching the Pain of Others, FRA, 2018)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Chloé Galibert-Laîné
  • Roteiro: Chloé Galibert-Laîné
  • Duração: 31 minutos
  • Nota:

Empatia. Como entender a empatia? As palavras de Susan Sontag no início de Assistindo à Dor dos Outros levam à literalidade que se confirma no primeiro contato com a diretora Chloé Galibert-Laîné. A primeira vez que vi o curta, saí no meio da sessão porque aquelas imagens fazem com que eu me sinta mal, ela diz. O nome do curta abandonado: A Dor dos Outros.

Todo construído em uma tela de computador, aquilo que era óbvio na partida, mergulha numa espécie de negação em si mesmo. A protagonista que não só conta como experimenta sua história, aquela que saiu da sala por não querer ver as imagens, mergulha por meses no filme rejeitado. As imagens são divididas, demarcadas, montadas em sequências diversas, ela comenta e ela pergunta. Em sua obsessão, cria e provoca um vínculo empático com aquilo que reproduz.

Assistindo à Dor dos Outros

Além de todo esse jogo de identificação, e por trás dele, está a Síndrome de Morgellons, uma doença não considerada pelos médicos e tratada como uma espécie de surto disseminado pela internet. A comunidade se une e propagandeia aquilo que sente fazendo com que outras pessoas sintam exatamente o mesmo. É o observar sinestésico de uma dor que também vai ser sua.

O curta entende a dinâmica e se estabelece estruturalmente dentro dela. A diretora quer pesquisar a dor daquelas mulheres, mesmo que haja o risco dessa dor se tornar sua. Além disso, quer entender todo o jogo de imagens e sentidos no trabalho de Penny Lane, a autora da obra que a fez sair do cinema. Daí surgem pontos interessantes: como a manipulação das imagens pode dar ou destruir a credibilidade em algo e como as opções por aquilo que se mostra constroem a sinestesia em potencial. Intencionalmente ou não, a lógica é a mesma nas imagens e relatos primeiros, que levaram Lane a criar e Galibert-Laîné a criar.

Vamos voltar, assim como o curta, à Sontag e seus estudos sobre fotografias de guerra. Todo o questionamento das imagens, sua validade e necessidade, estão entranhados pelo filme. Mais, o questionar da empatia, do sofrimento daquele que olha o sofrimento e o registra, se personificam naquela que conta a história. A estrutura complexa transfere ao espectador essa quase obsessão pelas imagens, esse auto-aprisionamento involuntário, como quando se mergulha no conjunto de Mandelbrot.

Há ainda outros questionamentos paralelos (ou não) que levam à estereotipização, validação do discurso e auto-imagem; a questão do gênero, envelhecimento, padrões. Tudo entra no jogo de associação e identificação que fazem a doença se espalhar e os filmes funcionarem, sejam eles os vídeos no YouTube ou os curtas. É na percepção desse sofisticado emaranhado que o filme de Galibert-Laîné se transforma em uma das experiências mais interessantes do ano. 

Se ela viu A Dor dos Outros e criou Assistindo à Dor dos Outros, o fim do curta leva à vontade de criar um Assistindo a Assistindo à Dor dos Outros. Mandelbrot de novo. E Sontag outra vez. A repetição não parece fazer muito sentido, mas, por sermos seres empáticos, faz todo. 

Um grande momento
A ferida no joelho.

[4º Ecrã]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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