Crítica | Streaming

Bad Hair

O folclore está vivo

(Bad Hair, EUA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Justin Simien
  • Roteiro: Justin SimienJustin Simien
  • Elenco: Elle Lorraine, Vanessa Williams, Lena Waithe, Kelly Rowland, Jay Pharoah, Blair Underwood, Michelle Hurd, Chanté Adams, Steve Zissis, Usher, Yanni King, Laverne Cox, James Van der Beek
  • Duração: 102 minutos

Corra! renovou uma linguagem cinematográfica da qual não se tirava o pó há algum tempo, o black horror, trazendo para o mainstream a voz e as ideias de uma jovem geração de realizadores. Essa é a primeira coisa que vem à cabeça ao assistir a produções como Master e a esse Bad Hair, estreia de hoje do Star+. São ideias que poderiam soar simples aos olhos de um público majoritariamente branco que cresceu lendo e vendo as histórias que outros brancos produziram e difundiram, enquanto herança cultural transmitida ao longo da História. Sem pedir licença a ninguém, e tendo a consciência de que um novo arsenal histórico precisa ser legado, nem que seja a outros povos e culturas, artistas como Nia DaCosta, Mariama Diallo, esse Justin Simien e tantos outros, constroem juntos uma nova iconografia da imagem para um cinema refrescante que busca no passado – do próprio cinema e de suas raízes – matéria-prima para esse novo capítulo. 

Simien já tinha impressionado anos atrás, ao lançar outro libelo poderoso, Cara Gente Branca, que rendeu um seriado igualmente aclamado, e aqui investe no cinema de gênero mais atraente da atualidade, aquele que não apenas te mantém no lugar de sempre. O que de melhor pode surgir em matéria de entretenimento se não, além de promover o que a palavra já diz, ainda encontrar espaço para difundir conhecimento e abrangência histórica? Quando um filme se assemelha ao de Simien, ou seja, o faz levantando bandeiras de maneira acertada, apontando sempre para a narrativa e não para o exterior, o resultado é o trabalho da mesma qualidade de cepa que seus colegas estão realizando. Em cena, uma ideia de colonialismo da imagem das mulheres pretas é discutida, sem jamais perder o foco do que o Cinema pode oferecer. 

O filme parte de uma ideia de como a comunidade feminina negra foi moldada em torno da ausência do orgulho pelo seu cabelo, sendo constantemente diminuída em sua tentativa de se afirmar como conceito estético e como padrão de beleza. Obviamente que isso não é uma perseguição social que apenas o cabelo da mulher preta sofreu, mas sua existência como um todo. O cabelo, no entanto, considerado uma coroa historicamente por povos africanos, ainda hoje precisa de reafirmação de potencialidade que não forneça novas ferramentas para a diminuição da auto estima dessa mulher. Simien promove um debate a esse respeito, criando historicidade nessa relação intrínseca entre a menina e seu cabelo, aí sim desenvolvendo uma narrativa de horror que o filme consegue alcançar com méritos.

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Ambientado nos anos 1980, época em que se fomentava essa explosão do orgulho preto na cultura pop adolescente, o filme embrenha suas imagens pelo que conhecemos da época, desde as imagens granuladas de filme independente até o que também nos foi doutrinado pela MTV, em uma tentativa aqui de reproduzir uma paródia de sua linguagem. Funciona tão bem porque toda a produção está conectada na intenção de realizar o mais realista possível de um cenário de vulgaridade estética, e algum estereótipo. A ascensão do videoclipe e dos artistas que promoveram suas mini revoluções em suas áreas, aliado a um conceito de cinema de gênero mais underground inclusive para o período retratado, é parte da soma de fatores que fazem de Bad Hair uma experiência inclusiva, engraçada, absolutamente dolorosa e muito premente em seus apontamentos. 

O filme não deixa de flertar com um aceno ao feminismo mais específico, porque mulheres no geral sofrem assédio e dificuldade de empoderamento e entraves sororitários, mas as pretas ainda enfrentam o racismo (externo e interno), estão constantemente assombradas pela periferia de corpos, e têm como já dito essa relação com o cabelo ainda mais ligada ao sofrimento. Em determinado momento, a protagonista ouve de sua mentora que entende ela ter ido para onde foi, confiando nas promessas que nunca são feitas (e muito menos cumpridas) à mulheres como elas. É uma cena onde essa eterna bandeira branca que a sociedade insiste em não hastear é vista, porque a competição é incentivada a todo custo e, entre elas, consegue-se no fundo entender a sedução da vitória, que lhes é negada pela sociedade desde que nasceram. 

Acima de tudo, Bad Hair é um filme que consegue apertar os muitos botões que se dispõe, um fluxo constante de ambição disfarçada de muita predisposição à diversão. Com essa alquimia pesada, que une o cinema de gênero (fantástico/terror), a comédia, a homenagem a um período do cinema que está constantemente sendo reutilizado com pouco êxito, um olhar de reconstrução histórico ao lugar onde o feminino negro é colocado, o filme consegue ser mais um acerto nesse arsenal de propósitos. Ao arriscar o excesso de linguagens e motivadores narrativos, Justin Simien consegue o raro lugar de acerto coletivo que só cria problemas para nossas expectativas em relação a ele. 

Um grande momento
Anna e Edna se encontram no salão 

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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