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Um Diário para Jordan

Triste momento para Denzel

(A Journal for Jordan, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Denzel Washington
  • Roteiro: Virgil Williams
  • Elenco: Michael B. Jordan, Chanté Adams, Jalon Christian, Tamara Tunie, Robert Wisdom, Jasmine Batchelor, Marchánt Davis, Susan Pourfar, Grey Henson, Vanessa Aspillaga, Johnny Wu
  • Duração: 131 minutos

Deve ser muito bom ser Denzel Washington. Ser Denzel Washington e ser amigo de Michael B. Jordan então, deve ser o máximo. Sendo Denzel, você consegue realizar o máximo de sonhos possíveis. Você é reconhecido pelo seu talento de ator, ganha os maiores prêmios que sua classe pode entregar (de Oscars a Tonys), você trabalha com os melhores profissionais da sua área, tais como Viola Davis e Joel Coen, você abre as portas mais inacreditáveis do mundo. Em algum ponto da sua carreira, ao ser Denzel Washington, você pode se dar ao luxo de tentar uma nova área e se consagrar também como produtor e diretor. Você pode até, veja só, apresentar o projeto de uma adaptação de um drama quase cristão sobre um casal vítima da guerra do Iraque como Um Diário para Jordan, e esse projeto ser viabilizado. Isso sim é exemplo de poder e portas abertas. 

Estreia de hoje da HBO Max, o filme dirigido pelo recém-chegado à décima indicação ao Oscar estreou nos cinemas americanos para o último Natal e quase foi abafado. Assistindo a ele agora, conseguimos entender o porque ter sido tratado com tamanha indiferença, quase desprezo, apesar de estar embaixo da aba de um dos maiores atores do nosso tempo. Esse é o seu quarto trabalho como diretor, e se nenhum deles sequer arranhou o que já cansou de provar como ator, definitivamente esse é o que podemos assegurar que quase nada deu certo, com poucas chances de errar. Algum mérito poderia ter tido essa adaptação, caso o planeta tivesse parado no tempo e nossos valores ainda obedecessem regras que há 100 anos atrás parecessem modernas.

Não há qualquer problema em se declarar cumpridor de regras de conduta ou seguir preceitos religiosos em relação à família e à pátria. O que soa anacrônico é a ingenuidade com o qual tais elementos são apresentados, rascunhados e desenvolvidos, não apenas pelo roteiro mas pelas imagens que são produzidas. Quando consegue positivar algo exposto, o mínimo que podemos dizer é que se trata de uma história de amor entre dois adultos que se comportam como duas crianças – não adolescentes, crianças mesmo. A forma como se relacionam, o modo como descobrem os sentimentos que irão nutrir, tudo parece datado e redundante, como se um grupo de senhoras fiéis ao Senhor tivessem escrito o roteiro, e até mesmo comandassem a produção. 

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Um Diário para Jordan
David Lee/Sony Pictures

Além disso, Um Diário para Jordan consegue aparentar discordância de ideias, jogando seus personagens em situações incongruentes, que não se sustentam não apenas pelo mundo onde vivem, mas em que são apresentadas discrepâncias. Uma mulher adulta, que mora longe dos pais em uma cidade como Nova York, que comenta a performance sexual de seu parceiro… porque essa pessoa age, em contrapartida, como uma jovem noviça perdendo a virgindade durante quase uma hora de filme? É exatamente esse o tempo que leva o “namorinho de portão” entre os protagonistas, que não transparece nenhum tipo de credibilidade. É até engraçado ver uma relação nascer e se desenvolver de maneira tão carola há 20 anos atrás, principalmente entre duas pessoas que não tem mais qualquer juventude aparente. 

Toda a sua linguagem, assim como essa atmosfera em constante estado virginal, revelam um Denzel Washington que parece ter sido tomado por tias idosas, que o possuíram para que ele divulgasse pelo mundo os reais valores da tradicional família cristã, suas rotinas e sua forma de encontrar a palavra do Pai em meio a um romance arranjado. É tudo tão ingênuo que a produção nunca consegue encontrar um tempero cinematográfico que o afaste da apatia. Apenas quando entra em cena o tal Jordan, filho do casal e personagem título, Um Diário para Jordan consegue angariar interesse. O jovem Jalon Christian, embora não forneça nada fora do comum, tem carisma e entusiasmo, o que falta a todos em cena, inclusive a Michael B. Jordan, quase em estado de catatonia. 

Difícil achar momentos minimamente agradáveis ou relevantes aqui, mas acreditem, todos os parcos estão sob as asas da jovem promessa que estará no fim do ano em Adão Negro e aqui já conseguiu o feito de roubar uma produção de Denzel Washington pra si. Não é todo dia que isso acontece, mas o trabalho do menino foi bem fácil. Entre mortos e feridos, ele é o único a sair inteiro dessa tragédia real que virou uma tragédia cinematográfica. 

Um grande momento
O encontro final 

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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