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A Tragédia de Macbeth

A montanha de Coen

(The Tragedy of Macbeth, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Joel Coen
  • Roteiro: Joel Coen
  • Elenco: Denzel Washington, Frances McDormand, Alex Hassell, Bertie Carvel, Brendan Gleeson, Corey Hawkins, Harry Melling, Miles Anderson, Matt Helm, Moses Ingram, Kathryn Hunter
  • Duração: 105 minutos

Não há mundo melhor para adentrar do que aquele criado por Shakespeare, também não há mais perigoso. Dono das palavras e conhecedor da alma humana como poucos, ele elaborou com tanta precisão suas histórias e deu a elas cadência e profundidade suficientes para que se tornassem universais e eternas. Voltar a elas é sempre um desafio, um pouco mais modesto quando se lança mão das possibilidades de adaptação, e muitas vezes maior quando se busca a proximidade com o texto original. Porém, estar nesse mundo, em um dos mundos de Shakespeare, é como um marco, a subida daquela montanha sonhada e programada por toda uma vida para muitos. Desafiadora e mortal. A Tragédia de Macbeth é a subida conjunta de Joen Coen, Denzel Washington e Frances McDormand.

A terceira mais famosa peça do escritor inglês, depois de “Romeu e Julieta” e “Hamlet” é um mergulho na ambição humana. Destino, fé, corrupção, culpa, loucura e poder se misturam nesse retrato da destruição do homem por si mesmo, onde Macbeth e sua esposa, depois de serem tentados por uma previsão, desejam realizar sua glória. Se o começo do texto exalta a maldade, com seres que podem brincar com a sorte, não há fortuna possível diferente daquela que se apresentará, mas Shakespeare sabe como trilhar os caminhos para que tudo se torne estimulante. Cria teias complexas e embaralha nelas seus personagens, mesclando devaneios sobre suas índoles, inseguranças culpadas e muitos delírios a artimanhas, diálogos virulentos e combates diretos.

A Tragédia de Macbeth
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Da perfeição do texto, e de toda a carga que vem com sua perenidade e o fato de sua representação acurada do sentimento humano, vem o desafio, que já foi assumido por muitos antes nos palcos e nos cinemas. Akira Kurosawa, Orson Welles, Roman Polanski, Justin Kurzel e até mesmo o brasileiro Vinícius Coimbra já foram alguns dos que levaram o Barão de Glamis, ou seus equivalentes, às telonas. Agora é a vez de Coen. E ele pega o caminho mais difícil, ao optar pelo clássico, no texto e na encenação. Seu A Tragédia de Macbeth é cinema puro, mas em momento algum se afasta do teatro. O que se ouve e o que vê é instigante, há limitação e extravaso, mas há construção cênica com jogos de câmeras, luz e um trilha muito bem pontuada.

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Em um preto e branco que deixa tudo mais impressionante e agigantado, ainda que na janela restrita do Academy Ratio (o formato 1.37:1), o universo conhecido vai encontrando suas particularidades. E a primeira delas é como ele resolve retratar as bruxas, figuras fundamentais, e sua concretização com Kathryn Hunter, que surge fenomenal. O modo como a atriz faz com que o jogo se estabeleça entre as três personagens, usando apenas o seu corpo, e logo depois isso é substituído por efeitos, consegue concretizar na tela aquilo que o bardo faz no texto. São elas que atraem não só Macbeth, mas também quem acompanhará sua jornada. O diretor, que sempre esteve ao lado de seu irmão Ethan Coen e agora voa solo, logo demonstra que está disposto a pegar o definitivo e deixar nele a sua marca.

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E pode-se dizer o mesmo dos dois atores que vivem os papéis mais relevantes da história. Denzel Washington, como Macbeth, e Frances McDormand, como Lady Macbeth, se entregam completamente, como se espera daqueles que resolvem subir a montanha. E não que fosse essa a primeira vez, já que Washington já fora Ricardo III na peça do mesmo nome e Brutus em Júlio César, assim como McDormand já vivera sua personagem em uma montagem relativamente recente de Macbeth. Enquanto o ator transita bem entre os sentimentos até assumir uma figura odiosa, ela se encontra na figura da mulher gananciosa e traiçoeira, até ser consumida pela culpa. São sentimentos dicotômicos transitando entre os dois em um jogo que vai se perdendo na loucura de ambos, cada um para um lado e há momentos grandiosos nesses arroubos de delírio e na busca pela sanidade perdida, como quando ela se senta descabelada e desgostosa após mais uma loucura dele, quando ele tenta se controlar antes de surtar no banquete, ou o modo reprovador como ela o olha devanear. Do muito ao pouco, duas atuações muito precisas.

Em torno de ambos, elementos são incorporados à adaptação como reverência aos que já passearam por essas terras, como na visão do fantasma de Banquo, e outros são renovados, buscando nas novas técnicas e efeitos seu diferencial, caso da nova consulta ao futuro. A Tragédia de Macbeth é um filme que se preocupa com tudo, com todos os detalhes, mas mais com a vontade de ver na tela um Shakespeare para chamar de seu e ter orgulho dele. Da arquitetura às tomadas elaboradas, aliás, a fotografia de Bruno Delbonnel é um dos grandes destaques do filme, passando por todo o cuidado de ambientação com o trabalho de arte e figurino, não há nada que não esteja ali naquelas sombras e caudas que queira destacar o que o texto havia dito. E é bonito ver como essa relação entre o escrito e o encenado se realiza de maneira tão equilibrada e orgânica, trazendo mais uma vez o bardo de volta para novas gerações, e, agora, ali bem perto do original.

Um grande momento
Lady Macbeth julgando o descontrole

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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