Crítica | Streaming

Bad Trip

Quando o limite é não tê-los

(Bad Trip, EUA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Comédia
  • Direção: Kitao Sakurai
  • Roteiro: Eric André, Kitao Sakurai, Andrew Barchilon, Dan Curry
  • Elenco: Eric André, Michaela Conlin, Lil Rel Howery, Tiffany Haddish
  • Duração: 84 minutos

O sucesso de projetos como Borat, onde câmeras escondidas tentam flagrar as reações de transeuntes reais em meio a situações absurdas perpetradas por atores que agem como tipos comuns disfarçados e integrados à ações ordinárias, acabou por ampliar a sanha do público sedento por comédias escrachadas para projetos cada vez mais radicais. Com a alta bilheteria e a indicação ao Oscar de Vovô sem Vergonha, o grupo cômico Jackass coloca à disposição da Netflix esse novo hit do streaming, Bad Trip, que segue os padrões das produções já citadas, misturando ficção e esquetes capturadas no mundo real para provocar a comicidade, que é alcançado ou não de acordo com o gosto do público por piadas nesse esquema.

Dito isso, o filme dirigido por Kitao Sakurai é uma pedida excepcional para quem busca infâmia a granel, com direito a nudez masculina, beijos inesperados, explosões e inúmeras brigas explícitas, com mais ou menos interferência externa e que exatamente essas provocam as maiores gargalhadas. Para o público-alvo que fez o sucesso do mais recente episódio da saga de Sacha Baron Cohen, Borat: Fita de Cinema Seguinte, esse novo produto é um genérico bem-vindo, com um trio de protagonistas carismático e talentoso, já testado anteriormente no cinema e que ajuda a conquistar simpatia ao projeto.

Bad Trip

Cinematograficamente falando, não há nada no filme que carregue relevância ou inovação. Os produtos da série Jackass (enquanto programas de tv ou em formato longa metragem, alguns fizeram bastante sucesso) não tinham qualquer discussão muito longa em seus formatos, para além da ampliação cada vez mais evidente de seus limites de auto-degradação – o que até proporia até algum debate sociológico, mas raramente que extrapolassem os conceitos do Cinema, ainda que eu consiga ver algumas análises provocativas sobre tal assunto sendo resenhadas aqui e ali, a título de criar um lugar de observação para essas obras.

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Vinte anos após o surgimento do conceito que o programa lançou, onde seus integrantes expandiram limites pessoais e subjetivos em uma espécie de flagelação cômica que gerou muita polêmica e também por isso fez tanta gente rir, o que sobrou pra Bad Trip realizar é formar um novo público que ainda seja herdeiro daquele tipo de abordagem humorística e consiga se deixar levar por adultos em situação de constrangimento em diferentes níveis de absurdo, e se essas reações extremadas funcionam ou não. Como peça de humor, o resultado é subjetivo e provavelmente sua entrega também dependerá não apenas do caráter particular como de sua entrega a esse “prazer culpado”.

Bad Trip

Assim sendo, como se equilibrar no envolvimento da obra? Com momentos verdadeiramente engraçados, o filme obviamente não funciona em cada uma das suas esquetes com o mesmo vigor, e assim sendo algumas passagens se sobrepondo às outras, o ritmo se perde e a obrigação de seguir um roteiro mais tradicional (escrito a seis mãos) emperra as investidas, tornando a sessão claudicante. Os fãs do subgênero não devem ter muito a reclamar, mas friamente o filme de duração enxuta carece de azeitar seu ritmo por conta desses altos e baixos de reações entre os acontecimentos, alguns muito engraçados e outros só narrativos.

O trio protagonista, Eric André (o destaque dos três, um homem muito bonito que se permite extrapolar praticamente tudo), Lil Hel Rowery (o hilário amigo do protagonista de Corra!) e Tiffany Haddish (muito premiada por Viagem das Garotas), é uma combinação explosiva de talento e oportunidade no que faz, e se apresenta com o máximo de cara de pau possível, e são eles os responsáveis por transformar Bad Trip no produto eventualmente divertido, que em seus acertos, não parece (nem precisa) ter limites.

Um grande momento
Drogados

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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