Crítica | Cinema

Be Natural: A História Não Contada da Primeira Cineasta do Mundo

Um reconhecimento mais do que justo

(Be Natural: The Untold Story of Alice Guy-Blaché, EUA, 2018)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Pamela B. Green
  • Roteiro: Pamela B. Green
  • Duração: 103 minutos
  • Nota:

Be Natural. Seja natural, não finja, não falseie, não interprete de maneira caricata. Mantenha a simplicidade e a certeza de que sabe o que está fazendo pois sente da maneira certa. Esses preceitos orientavam o ofício do cinema na Solax Company, o primeiro estúdio de cinema fundado por uma mulher. Correção: não por uma mulher, mas por aquela que talvez tenha sido a primeira, a pioneira: Alice Guy-Blaché. Provavelmente você não vai ler sobre ela nos livros de cinema, não vai ouvir falar dela nas aulas de cinema. O documentário Be Natural: A História Não Contada da Primeira Cineasta do Mundo tenta jogar luz sobre essa ausência, continuando um trabalho de reconhecimento iniciado pela própria diretora, mas que não chegou a ver concretizado.

Foi graças ao trabalho incansável de conversadores, arquivistas, historiadores e críticos de cinema que Alice foi descoberta e vem tendo seu legado cada vez mais reconhecido. Para além do fato de dirigido A Fada dos Repolhos em 1896, considerada a primeira ficção do cinema; ter feito mais de mil filmes de todos os tipos e tornado a Gaumont uma das produtoras de cinema mais importantes da França (já que o seu dono e fundador não acreditava muito na invenção dos irmãos Lumière), Alice foi uma mulher realmente à frente do seu tempo, do seu negócio, que encontrou um propósito e seguiu desenvolvendo sua arte mesmo sendo atravessada pelo machismo e a insistência da estrutura patriarcal em tentar esmagar qualquer resquício da sua importância.

Muitas mulheres que brilham na meca hollywoodiana participam de Be Natural, a começar pela narração que é de Jodie Foster; pela presença de Ava DuVernay como uma das entrevistadas – sendo a única das contemporâneas que já havia visto filmes de Alice Guy – e especialmente pela própria filha de Alice, Simone, narrando as desventuras da mãe que dedicou boa parte dos seus anos finais a encontrar seus filmes e reescrever a história do cinema, que a excluía do cânone. Partindo de uma pesquisa e investigação histórica primorosa, inclusive utilizando imagens de arquivo de uma entrevista com a própria Alice Guy, feita pelo historiador e crítico Vitor Bachy, a documentarista Pamela B. Green vai narrando a vida, a maneira criativa de fazer filmes e os desafios superados pela cineasta francesa.

A estética de Be Natural é moderna, inventiva, cheia de gráficos e ilustrações. Partindo do presente para alcançar o futuro, numa frenética colagem de ícones do cinema, em uma jornada em busca de arquivos, filmes e informações, percorre vários lugares, dos Estados Unidos e da França, sempre encontrando dificuldade em encontrar um material completo. Tem encontros que não rendem o esperado e outros surpreendentes, como quando acha as caixas com negativos num lugar que se pensava não haver nada de relevante. Se o custo de produção é alto nessa reconstrução do percurso e nas pesquisas de campo, ele é minimizado pelo uso da tecnologia, com a participação de vários depoimentos por videochamadas, conseguindo unir pessoas de várias partes do mundo.

Alice Guy-Blanché é personagem do documentário Be Natural: A História Não Contada da Primeira Cineasta do Mundo

Be Natural descobre Alice como madrinha de outras pioneiras como a atriz e cineasta norte-americana Lois Weber (que não só estagiou na Solax como acabou levando embora consigo Herbert Blaché), e demonstra que a cineasta fazia um uso-invenção muito próprio dos códigos da imagem. Nos EUA não demorou para ter o reconhecimento que Gaumont e outros haviam lhe negado na França, onde ela iniciou como secretária e tornou-se chefe de estúdio. Tendo controle criativo e executivo de seus projetos, logo ela viu a Solax prosperar mesmo com o marido trapalhão – Herbert era um contador quando eles se conheceram cujo primeiro trabalho como cinegrafista foi considerado imprestável, tanto que o material foi descartado -, atraindo a atenção e os investimentos de gente como William Randolph Hearst (em quem Cidadão Kane foi inspirado), que produziu The Ocean Waif.

Pamela vai costurando na estrutura de seu tributo com imagens de arquivo de diversos filmes de Alice, e uma entrevista recuperada da própria contando histórias do seu passado, suas primeiras experiências e falando sobre os apagamentos absurdos por Georges Sadoul, Henri Langlois e Jean Mitry, historiadores que mal se deram ao trabalho de pesquisar a fundo os primórdios do cinema. Outra entrevista recuperada, depois de muitos contratempos é a de Simone, que acabou se tornando secretaria de estúdio e depois seguiu carreira na diplomacia, quando levou a mãe consigo para viver na Europa, onde Alice não conseguiu emprego na indústria audiovisual. 

Be Natural: A História Não Contada da Primeira Cineasta do Mundo

Cineasta renomada e com experiência mais do que comprovada, ela chegou a pedir emprego como assistente de direção, sendo sistematicamente recusada apenas por ter nascido no gênero “errado”. Afinal, a cota estava preenchida, já havia uma mulher para constar nos anais da história dos primórdios de Hollywood (Dorothy Arzner), uma na nouvelle vague e uma no cinema novo, ainda que também estas tenham enfrentado o mesmo machismo e tentativas de apagamento. Os  críticos e historiadores de cinema sempre expressaram em suas publicações o desapareço pelas mulheres que faziam cinema – e que de certa forma dominavam as principais funções – nas primeiras décadas do século 20, sistematicamente foram empurrando-as para os bastidores, para funções de menos prestígio ou reconhecimento.

Mesmo quando Sadoul tenta remendar a ausência de Alice Guy em seu “História Geral do Cinema”, incluindo mais filmes em uma segunda edição revisada (o único filme incluído na primeira edição não havia sido dirigido por ela), fica latente o fato de que o trabalho artístico realizado pelos homens é aquele digno de valor estético. É a lógica do show business criado por homens brancos e ricos. This is a man’s world.

Be Natural: A História Não Contada da Primeira Cineasta do Mundo

Porém, nem todos os homens são mesquinhos ou pelo menos tentam não ser mais. Pamela B. Green, entre tantos momentos de dúvidas e indecisões sobre se encontraria o filme que queria, as dificuldades da pesquisa e a falta de orçamento, conseguiu o aporte financeiro de Hugh Hefner (ele mesmo, da Playboy) e de Robert Redford e seu Sundance Institute. Indo além documentário, outros muitos técnicos também dedicaram-se à recuperação e preservação de seus filmes, ações que contaram com o apoio, inclusive, do The Film Foundation, de Martin Scorsese.

O documentário chega agora aos cinemas brasileiros para que a difusão da saga heroica de Alice Guy-Blaché continue numa amplitude ainda maior. Porque assistir a Be Natural é um exercício fundamental para os que amam o cinema e especialmente para as mulheres que fazem, estudam e analisam filmes, pela dimensão dantesca com que expõe a maneira como opera a indústria hoje – muito mais propícia a busca pela equidade e por mais espaço para narrativas femininas. Como disse Agnès Varda, ao fim de seu depoimento sobre a importância da cineasta e conterrânea para o cinema e as cineastas: “vida longa à madame Alice Guy-Blaché!”

Ao longo da duração desse filme-bálsamo, por vezes é difícil conter as lágrimas e a confusão de sentimentos de raiva, dor, desolação e júbilo. que bom que Pamela B. Green conseguiu realizar seu projeto de quase uma década, trazendo um documentário elegante, emocionante e impactante e uma muito bem-vinda reparação histórica. Que Be Natural chegue a muitos lugares e consiga apresentar a um número cada vez maior de pessoas aquela mulher que estava na exibição privada de apresentação dos irmãos Lumière e foi a primeira a pensar que aquele invento era um poderoso meio de criação artística, criando e expandindo o cinema.

Cena memorável
“Tante Alice”

Um brinde: o curta As Consequências do Feminismo, dirigido por Alice em 1906

Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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