Crítica | Cinema

Bill & Ted: Encare a Música

Piada requentada

(Bill & Ted Face the Music, EUA, CAN, ITA, 2020)

  • Gênero: Comédia
  • Direção: Dean Parisot
  • Roteiro: Chris Matheson, Ed Solomon
  • Elenco: Keanu Reeves, Alex Winter, Kristen Schaal, Samara Weaving, Brigette Lundy-Paine, William Sadler, Anthony Carrigan, Erinn Hayes, Jayma Mays, Hal Landon Jr., Beck Bennett
  • Duração: 91 minutos
  • Nota:

Muitos mais conservadores devem odiar a figura do slacker – o cabeludo que ficou famoso na década de 90 pelas roupas displicentes à moda slacker sem muitas perspectivas de vida além de farrear. A geração X, como ficou conhecida, veio logo após os baby boomers e, filhos de uma revolução de costumes, já consideravam habitual viver à margem dos valores daqueles que nasceram com medo da bomba. Muitas das comédias daquela geração refletiram isso, como Beavis & Butthead, Os Cabeças de Vento e, posteriormente, Tenacious D: Uma Dupla Infernal. Mas se pudermos considerar um pioneiro de todos esses filmes, precisamos olhar para Bill & Ted: Uma Aventura Fantástica

Lá em 1989, chegava aos cinemas uma aventura onde dois adolescentes desocupados que só queriam saber de heavy metal e que, para passar em história, acabam arrumando um jeito de viajar no tempo e aprender o conteúdo programático in loco. A sequência Bill & Ted: Dois Loucos no Tempo (1991) confirmou a química entre Alex Winter e Keanu Reeves, catapultando o segundo para o estrelato em obras como Velocidade Máxima (1994) e Matrix (1999). Um legado excelente, como diriam seus protagonistas.

Bill & Ted: Encare a Música

Quase três décadas depois, Bill & Ted era uma lembrança carinhosa, mas como vivemos em uma época onde tudo merece revival, remake, sequência ou reboot, os roteiristas dos dois primeiros Chris Matheson (Pateta: O Filme) e Ed Solomon (MIB – Homens de Preto, As Panteras) voltam para um terceiro filme, Bill & Ted: Encare a Música, que traz os eternos adolescentes já com família constituída, com as filhas Billie Logan (Brigette Lundy-Paine, de Atypical) e Thea Preston (Samara Weaving, de Casamento Sangrento) participando do novo encargo que lhes é designado: escrever a música que irá unir o universo e impedir que tempo e espaço se dobrem e seja o fim de tudo.

Agora dirigidos por Dean Parisot, experiente diretor de comédia responsável por Heróis Fora de Órbita e As Loucuras de Dick e Jane, o novo filme é o mais sério da saga Bill & Ted, com um arco mostrando as esposas Elizabeth e Joanna insatisfeitas com o casamento e a inabilidade dos maridos amadurecerem. Também é onde é mais palpável uma ameaça mundial, através do robô criado por Anthony Carrigan (Barry) perseguir os protagonistas através de diferentes períodos de tempo.

Bill & Ted: Encare a Música

Dessa forma, como é possível de se perceber, estamos falando do filme mais narrativo da dupla, com arcos de personagem se desdobrando e evoluindo e com um clímax digno das franquias atuais. É definitivamente menos nonsense nesse sentido, evocando emoção ali e aqui, e mais consciente da bobeira que representa também, ao contrário dos anteriores, no limiar entre uma pureza colorida infantil e as piadas adolescentes maliciosas.  

Além disso, também falamos de um filme que é, ao mesmo tempo, uma nova aventura dos amigos que tantos aprenderam a cultuar, mas também de Billie e Thea, suas filhas, o que acaba criando uma certa redundância: de um lado o filme até inova com suas representações absurdas do futuro mas, por outro, também temos o mesmo filme novamente, mas com gênero trocado.

Bill & Ted: Encare a Música

É claro, Bill & Ted não é algo para se levar a sério, e isso é público e notório na formulação da narrativa, então, qualquer que cobre o filme nesse sentido está pedindo algo que a produção não almeja. Mas Encare a Música parece sofrer do contrário: longe da inocência do final da década de 80 e início da década de 90, já é fruto de uma era cínica, onde mesmo que os amigos estejam certos em nunca amadurecer, o próprio filme já é mais preocupado em ser conflituoso, em explorar o drama e, justamente por conta disso, muitas vezes esquecer da piada. 

Com isso, temos um filme que pode ser acusado de aproveitar da nostalgia das franquias ao pegar dois ícones da infância/adolescência de muitos, já que tenta embalar um projeto de humor inusitado de outra época em uma narrativa mais comportada, talvez tentando fisgar quem nunca viu Bill & Ted, onde as atrizes tentam conquistar a nova geração. Mas fica um gostinho de obra que ficou pelo meio do caminho, um quero mais que nunca se concretiza de fato. Vale, é claro, pela química de Winter e Reeves, que felizmente não envelheceu um dia, e ainda é capaz de arrancar risadas. Eles são o fio condutor do filme e por este ainda não constranger, mas parecer um olhar terno para o passado. Só nos resta agradecer, portanto, ter mais uma oportunidade de fazer air guitar tantos anos depois.

Um grande momento:
O reencontro com a velha amiga Morte

Bernardo Brum

Jornalista formado no Centro Universitário Carioca. Roteirista pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Crítico de cinema desde 2009 e podcaster desde 2015. Cinéfilo iniciado por Laranja Mecânica e Noivo Neurótico, Noiva Nervosa.
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