(Eternal Sunshine of the Spotless Mind, EUA, 2004)
Drama
Direção: Michel Gondry
Elenco: Jim Carrey, Kate Winslet, Elijah Wood, Mark Ruffalo, Jane Adams, David Cross, Kirsten Dunst, Tom Wilkinson, Deirdre O’Connell
Roteiro: Charlie Kaufman, Michel Gondry, Pierre Bismuth
Duração: 108 min.
Nota: 9 ★★★★★★★★★☆

“Abençoados sejam os esquecidos, pois tiram maior proveito dos equívocos.”
Friedrich Nietzsche

Ah, o amor! Aquele tema que, a despeito do tempo que passe, de todas as mudanças sociais, está sempre voltando à arte. Vivenciado ou não, esse sentir que não consegue encontrar muitas explicações racionais já rendeu muitas obras inesquecíveis. Antigas e modernas, ousadas e quadradas, documentais e ficcionais, desde muito antes de Shakespeare e seus amantes adolescentes suicidas, são ficções que encontram seu lugar entre a identificação e a idealização, e dificilmente não chegam onde querem.

Não seria diferente com o cinema, que já produziu uma enorme lista de romances inesquecíveis e tem entre suas histórias de amor pequenas pérolas como Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, dirigida pelo francês Michel Gondry, com Kate Winslet e Jim Carrey vivendo o casal Clementine e Joel.

Depois de uma longa experiência com videoclipes, o filme é o segundo longa-metragem de Gondry, que já havia despertado uma certa curiosidade com seu primeiro título, Natureza Quase Humana. As já conhecidas criatividade do realizador e seu cuidado com a construção de imagens, estão por todo filme, mas é o roteiro, assinado por Charlie Kaufman, Michel Gondry e Pierre Bismuth, que se destaca na produção.

A história do casal parte do encontro casual com identificação improvável de dois amantes para, em um longo flashback, voltar a eventos que nada têm de usual. Aquilo que é conhecido por muitos vai buscar na fantasia – e no desconhecido – um local para acontecer. Ao brincar com elementos comuns ao tema como o destino e a impossibilidade de se fugir dele, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças encontra originalidade em suas escolhas.

É interessante que o filme descola-se daquele mito do amor romântico, que busca a felicidade eterna difundida pelos contos de fadas. No relacionamento de Clem e Joel há rotina, insatisfação, ciúme, incompreensão e mais um monte de sentimentos negativos conhecidos – mas geralmente ignorados na ficção – ao lado de outros como paixão, afinidade, felicidade. Ao buscar a dualidade, o longa encontra na identificação sua maior força. E isto é aprimorado ao criar uma alternativa de solução ao real além do filme, como o poder apagar alguém da mente e seguir em frente.

Envolvidos pela estética e pelo que há de facilmente identificável no roteiro, o longa vai buscar na filosofia sua razão de existir. Se em sua origem estão os versos de Alexander Pope, que inclusive dão o nome ao filme, o caminho encontra Nietzsche, não só em citação explícita, sobre o esquecimento, mas em toda uma forma de analisar o amor e o recomeço. Aquilo que parte da afirmação imediata, passa pelas dúvidas, entristece-se, mas afirma-se novamente, em uma nova configuração.

Todo o negativo torna-se poder de afirmar e se transforma na maneira de ser da afirmação como tal, como analisou Deleuze. O devir, o múltiplo e o acaso viram objetos com essa segunda afirmação. Tudo isso escondido em Montauk, disfarçado de encontros, esquecimentos forçados e reencontros, que vão levar ao mesmo lugar. Como quando Clem conta a Joel, que ali não vê nada nela que a desagrade, que ele logo verá.

E aí está o amor, em sua imprevisibilidade previsível e em sua constatação mais humana. Contado de uma outra maneira, mas ainda sendo a mesma coisa.

Um Grande Momento:
Vamos fingir que tivemos uma despedida.

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